O combate ao coronavírus à luz da ciência

O combate ao coronavírus à luz da ciência

 

Fernando Alcoforado*

Vários posts têm sido veiculados através das redes sociais tentando demosntrar que a cloroquina e hidroxicloroquina são o remédio para combater o Coronavirus, seja com a opinião de médicos, seja com o resultado de pesquisas bem sucedidas com o uso desses medicamentos na cura de inúmeros pacientes. Em oposição a esta visão se colocam gabaritados professores da Universidade Oxford e da Universidade Birmingham que consideram cloroquina e hidroxicloroquina prejudiciais à saúde no tratamento do Coronavirus. O amplo uso da hidroxicloroquina expõe alguns pacientes a danos raros, mas potencialmente fatais, incluindo reações adversas cutâneas graves, insuficiência hepática fulminante e arritmias ventriculares (principalmente quando prescritas com azitromicina), segundo Robin Ferner, do Instituto de Ciências Clínicas da Universidade de Birmingham, e Jeffrey Aronson, do departamento de Ciências da Saúde da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Não deixa de ser auspicioso saber que pesquisas realizadas pelo IHU Méditerranée Infection de Marselha, França,com pacientes do COVID-19, tratados por pelo menos 3 dias com a combinação Hidroxicloroquina-Azitromicina (HCQ-AZ) com um acompanhamento de pelo menos 9 dias demonstrou a eficácia do medicamento contra a Coronavirus. Além da hidroxicloroquina, há a notícia de que favipiravir, também conhecido por Avigan, foi recomendado por autoridades sanitárias chinesas porque acelera a recuperação de infectados. Aqueles que receberam o favipiravir ficaram negativos para o vírus depois de uma média de quatro dias após se tornarem positivos, enquanto os que não usaram a droga precisaram de uma média de onze dias para se recuperar. Para Karl Popper a sustentação de uma teoria ou o resultado de uma pesquisa é sempre provisória posto que suas conclusões devem ser sempre testadas empiricamente em outros locais por cientistas gabaritados. Isto terá que ser feito tanto para a hidroxicloroquina como para o favipiravir para que possam considerados como solução para a cura de pacientes com o Coronavirus. Para tentar resolver esse problema, Popper estabeleceu o que ele mesmo denomina ”método dedutivo de teste”.

Para testar uma teoria ou o resultado de uma pesquisa com hidroxicloroquina e favipiravir, pode-se utilizar o método de Popper que propõe quatro passos, ou espécies de provas: 1º) Testes internos: buscam a coerência das conclusões extraídas a partir do enunciado; 2º) Testes da forma: consiste nos testes para se saber se a teoria é, de fato, uma teoria empírica ou científica ou meramente tautologia, isto é, proposição analítica que permanece sempre verdadeira, uma vez que o atributo é uma repetição do sujeito; 3º) Testes de inovação: verificação se a teoria realmente é nova ou já está compreendida por outras existentes no sistema; e, 4º) Testes empíricos: verificação da aplicabilidade das conclusões extraídas da teoria nova. Popper afirma que uma teoria ou resultado de uma pesquisa será mais válida quanto mais for falseável, ou seja, quanto mais existirem possibilidades de ser falseada e, mesmo assim, ela continuar respondendo aos problemas científicos. Uma vez propostas, as teorias especulativas terão que ser comprovadas rigorosa e implacavelmente pela observação e a experimentação. As teorias que não superam as provas observáveis e experimentais devem ser eliminadas e substituídas por outras conjecturas especulativas.

É oportuno observar que o método científico diz respeito a um aglomerado de regras básicas de como deve ser o procedimento a fim de produzir conhecimento científico, seja um novo conhecimento, seja uma correção ou um aumento de conhecimentos anteriormente existentes. Na maioria das disciplinas científicas, o método científico consiste em juntar evidências empíricas verificáveis baseadas na observação sistemática e controlada, geralmente resultantes de experiências ou pesquisa de laboratório ou de campo e analisá-las com o uso da lógica. O método científico nada mais é do que a lógica aplicada à ciência. Portanto, o resultado da pesquisa realizada pelo IHU Méditerranée Infection, Marselha, França, sobre a hidroxicloroquina e o favipiravir recomendado por autoridades sanitárias chinesas só poderá ser considerada uma demonstração da eficácia no combate ao Coronavirus se ela for repetida em outros locais e chegarem ao mesmo resultado com o uso do método científico. Para descrever uma lei da natureza é preciso testar reiteradamente, colher e registrar os resultados, aguardar que isso se repita com vários outros pesquisadores para, então, ser considerada válida. Isto é, uma lei científica é válida quando a comunidade científica, fundada em experiências particulares, colhe resultados semelhantes ou pretensamente iguais repetidas vezes. Na atualidade, hidroxicloroquina e favipiravir precisam passar por testes rigorosos para avaliar suas eficácias e o impacto de seus efeitos colaterais.

O combate ao Coronavirus não se reduz à busca do remédio capaz de realizar a cura de pacientes. É preciso desenvolver, também, uma vacina capaz de realizar a prevenção contra a doença. Sobre vacina contra o Coronavirus, pesquisadores dos Estados Unidos e da Alemanha estão na frente nessa corrida e com cerca de 20 grupos dedicados a encontrar uma imunização contra a doença. A China desenvolveu seu primeiro protótipo e o Ministério de Defesa anunciou que o país está pronto para iniciar os ensaios clínicos em seres humanos. Voluntários entre 18 e 60 anos estão sendo chamados para testar a vacina. Os Estados Unidos, que iniciaram a primeira fase dos seus ensaios clínicos um dia antes do anúncio chinês, também perseguem uma solução rápida, eficaz e segura. O problema da vacina, porém, não termina com a descoberta. É necessário realizar os testes em seres humanos com base no método científico para avaliar sua eficácia na prevenção da doença. Uma vacina só deverá ser adotada depois de ser testada reiteradamente, colher e registrar os resultados, aguardar que isso se repita com vários outros pesquisadores para, então, ser considerada válida. Só assim, ela poderá ser produzida em larga escala e distribuída para milhões de pessoas. Isso não poderá acontecer em menos de doze meses.

Ressalte-se que a busca por um método científico adequado pautou a ação de grande parte dos pensadores dos séculos XVI e XVII destacando-se entre eles Galileu Galilei, Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton, que com suas contribuições foram decisivos para a estruturação daquilo que chamamos hoje de ciência moderna. Galileu é considerado o “pai da ciência moderna”. Para Galileu o objetivo das investigações deve ser o conhecimento da lei que preside os fenômenos. Além disso, o foco principal da ciência deve ser as relações quantitativas. A partir de 1623, Galileu Galilei fundou a ciência moderna com a formulação do método científico indutivo que é utilizado até hoje. O método de Galileu é conhecido como indução experimental. Com Galileu, o estudo da natureza passou a ter uma abordagem diferente da de Aristóteles quando a ciência passou a ser mais experimental do que especulativa. Com o estabelecimento do método científico, quebrou-se o paradígma aristotélico que prevalecia até então. As concepções científicas de Aristóteles utilizava uma metodologia apenas formal e não empírica. Foi Galileu o primeiro teórico do método experimental.

Pode-se afirmar, portanto, que o resultado de toda e qualquer pesquisa é provisória posto que suas conclusões precisam ser testadas empiricamente em outros locais por cientistas gabaritados para assegurar sua validade. A Ciência progride graças ao ensaio e ao erro, às conjecturas e refutações, segundo Popper. O método da ciência é o método de conjecturas audazes e engenhosas seguidas de tentativas rigorosas para comprová-las. A verdade é o objetivo genuíno da investigação científica. A verdade é uma interpretação da realidade, confirmada por outros seres humanos e confirmada por equações matemáticas formando um modelo capaz de prever acontecimentos futuros diante das mesmas coordenadas. Para Leibniz, seria necessário distinguir dois tipos de verdade: de um lado as verdades de razão e de outro as verdades de fato. As verdades de razão enunciam que uma coisa é necessariamente e universalmente não podendo ser diferente do que é, tal como as ideias matemáticas, sendo inatas. As verdades de fato, ao contrário, são aquelas que dependem da experiência, expressando ideias obtidas através das sensações, percepção e memória, sendo, portanto, empíricas. Segundo Leibniz, a relação entre verdades de razão e de fato, julgadas pela racionalização das informações, permite conhecer a realidade.

Pelo exposto, pode-se concluir que o uso da hidroxicloroquina e do favipiravir só deve ocorrer como último recurso para pacientes que estejam na UTI e, que, enquanto não for desenvolvido um medicamento que realize a cura de pacientes comprovado cientificamente e uma vacina comprovada cientificamente para prevenir a população contra o Coronavirus, o isolamento social total é absolutamente necessário no momento em todo o mundo para evitar o colapso do sistema de saúde que, nessas condições, não poderá atender não apenas os pacientes com Coronavirus, mas também aqueles afetados por outras doenças. Qualquer solução diferente desta significaria expor a população ao vírus e à morte consequente como já aconteceu na Itália e na Espanha.

* Fernando Alcoforado, 80, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).

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