Tsylla Balbino sem emergência

Tsylla Balbino sem emergência

Tsylla BalbinoAs gestantes que precisarem de uma emergência obstétrica na capital baiana hoje (10) não devem procurar a Maternidade Tsylla Balbino. O hospital estadual, que fica na Baixa de Quintas, foi fechado nesta quinta-feira por falta de médico plantonista.

A informação foi divulgada pelo diretor técnico da unidade, o obstetra Hilton Augusto Silva Neto, na última terça-feira (07), durante Sessão Plenária Temática do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb) para falar sobre a crise nas maternidades no estado. O encontro foi mediado pela presidente do Conselho, conselheira Teresa Maltez, e contou com a presença do secretário estadual de Saúde, Fábio Vilas-Boas, além de representantes das entidades médicas.

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“Nesta quinta-feira terei uma situação sui generis, que nunca vi acontecer. Até o mês passado eu tinha uma equipe completa, com quatro plantonistas, mas, em junho, houve um abandono coletivo espontâneo de três profissionais”, relatou Dr. Hilton. Segundo ele, a situação é justificativa pela precarização do vínculo, que inclui atrasos de salários que ultrapassam os três meses. “Hoje, tenho um quadro de anestesistas que apenas dois são do quadro, o restante é pejotização ou tem vínculos precários”, afirmou.

Ainda de acordo com o diretor técnico da Tsylla Balbino, há 13 semanas a maternidade não dispõe de plantonistas as quartas-feiras pela manhã. “Eu tento atrair profissionais de todas as formas, mas não consigo porque não é atrativo. Com um plantão de R$ 620 líquido, não consigo atrair ninguém”, desabafou ele, complementando: “Como obstetra, falta alguém na enfermaria, eu atendo. Falta alguém para operar, eu opero. Falta alguém na ultrassonografia, eu faço. Falta alguém no plantão, eu cubro. Mas, como anestesista, por exemplo, eu não sei o que fazer”.

O corregedor do Cremeb, conselheiro José Abelardo, aproveitou a oportunidade para informar que a maioria das denúncias que chegam ao Cremeb são por problemas ligados ao parto. “Falamos problemas no parto porque, na maioria das vezes, a culpa não é do obstetra. São as pacientes que fazem o tour obstétrico. São aquelas que fazem o pré-natal com enfermeiro e não com o médico. São pacientes que chegam com hipertensão gestacional, mas que chegam na maternidade sem tratamento porque não foi feito o pré-natal adequado”, informou.

Para Dr. Abelardo, que atua como anestesista da Maternidade de Referência José Maria de Magalhães Netto, a falta de medidas resolutivas por parte dos gestores governamentais está fazendo com que gestantes com doenças previsíveis e controláveis morram. “As pacientes falsêmicas, que são muitas na Bahia, chegam na maternidade de referência sem referência nenhuma e morrem. As diabéticas morrem e seus fetos também. E não é por falta de médico”, relatou ele, acrescentando: “Defendemos contratos que respeitem os direitos do cidadão médico, que não precisemos receber de forma irregular, com atrasos frequentes”.

A licitação para gerir a Maternidade de Referência que está em curso também foi outro assunto abordado entre os médicos presentes. O valor do contrato, que hoje está sob a gestão da Santa Casa, caiu de R$ 7,2 milhões para R$ 5,7 milhões. “Que mágica é essa, que, quem ganhar essa licitação, vai conseguir equacionar isso?”, questionou o vice-presidente da Associação Bahiana de Medicina (ABM), Dr. José Márcio. O médico alega que o gerenciamento da Santa Casa pode até não ter sido a “oitava maravilha”, mas, pelo que ele acompanhou, foi uma gestão de qualidade. “Se já estamos neste caos com uma gestão de qualidade, imagina como não será futuramente?”, ratificou a obstetra Mônica Bahia, que também atua na Maternidade de Referência e é diretora do Sindicato dos Médicos da Bahia (Sindimed).

O presidente do Sindimed, Dr. Francisco Magalhães, chamou atenção para a necessidade de se fazer concurso público. “Essa é a melhor forma de trazer o médico para o serviço público. Na Bahia, temos um número grande de obstetras que poderia estar cobrindo todas as unidades do estado, mas, infelizmente, com essa situação dramática que os obstetras vivem muitos abrem mão da especialidade porque não aguenta aquele sofrimento”, pontuou, relatando que, na Climério de Oliveira, já se registrou 22 mulheres em uma enfermaria cuja capacidade era de apenas seis. “Precisamos abrir novos leitos, não sei quem deve fazer isso, mas esse problema precisa ser resolvido. Hoje, nós temos maternidades superlotadas, um sofrimento, e os médicos sendo criminalizados”.

Justificativa

 Além de fazer uma apresentação mostrando quais os problemas das maternidades estaduais na Bahia, o secretário de saúde, Dr. Fábio Vilas-Boas, que estava acompanhado do obstetra Antônio Carlos Vieira Lopes, na condição de consultor do banco internacional, fez questão de ressaltar que o país está em crise. “Não sei se vocês sabem, mas, hoje, há 18 estados sem pagar a folha salarial no início do mês, alguns fracionando em duas vezes outras em até três vezes. A Bahia, assim como outros estados, desde dezembro de 2015 ultrapassou o limite prudencial da lei. Não posso contratar, aumentar salários, dar correções de gratificações porque senão teremos nossas contas rejeitadas”, disse.

Como alternativa para amenizar o caos no setor, o secretário informou que o Estado conta com um financiamento do Banco Mundial para investir no valor de US$ 20 milhões (cerca de R$ 67,6 milhões) para investir em reformas de hospitais, aquisição de equipamentos e, sobretudo, em um programa de qualificação. “Uma análise profissional, respeitada, correta, está sendo conduzida. O que sair desta comissão, nós iremos fazer. Nós iremos fazer o que for necessário para reduzirmos esses números vergonhosos de mortalidade neonatal, infantil e materna na Bahia”, garantiu o secretário.

Mesmo com a promessa do secretário, o conselheiro Otávio Marambaia fez questão de fazer um apelo especial ao secretário: ampliar o atendimento na Maternidade de Referência, que, desde o final de 2015, teve uma redução de 50% no número de partos. “Não vamos limitar o serviço apenas casos de alta complexidade. Por conta desta redução vivenciamos um caso absurdo na maternidade Climério de Oliveira, onde uma gestante pediu para ser atendida no chão. Quando um ser humano descarta a sua dignidade para ter o seu filho no chão, chegamos ao fundo do poço”, afirmou ele, finalizando: “Construir novos leitos é importante, pois perdemos leitos nos últimos anos, mas não esqueça que parede não atende pessoas. Quem atende pessoas são pessoas”.

 

Fonte: Cremeb

Redação Saúde no Ar*

 

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