Leitura sem fronteiras

Leitura sem fronteiras

Ponto de vista

Leitura sem fronteiras

Joaci Góes

Óh! Bendito o que semeia Livros… livros à mão cheia… E manda o povo pensar! O livro caindo n´alma É germe – que faz a palma, É chuva – que faz o mar. Castro Alves.

Para o amigo e historiador Elísio Brasileiro.

A Academia de Letras da Bahia lança a ideia da criação de bibliotecas públicas em todos os 5.570 municípios brasileiros, com a singularidade de não haver registro dos nomes dos leitores, dependendo da honestidade e espírito público de cada um devolver os livros levados. O acervo bibliográfico será composto de doações pela sociedade, incentivada a fazer circular os livros, depois de lidos, para que cumpram seu papel redentor, como o mais poderoso veículo de transmissão do conhecimento, fator de transformação das pessoas e dos povos. O projeto enseja que uma biblioteca seja aberta em espaços de quaisquer dimensões, com acervos variáveis, de mil exemplares para cima, sabendo-se que numa pequena comunidade esse mínimo pode ser bem menor, como o horário para realizar as operações rotineiras. Para as primeiras unidades que serão inauguradas em Salvador, já contamos com doações que sobem a milhares de exemplares, sem que tenha havido, até agora, qualquer divulgação do projeto. Os interessados em fazer doações serão oportunamente instruídos a respeito.

Correspondências personalizadas, contendo detalhadas explicações sobre o projeto, serão enviadas a todos os governadores, prefeitos, presidentes de câmaras municipais e assembleias legislativas do Brasil, bem como a entidades de classe e veículos de comunicação, visando a criação de um mutirão nacional em favor da criação do hábito da leitura, num país, como o nosso, que figura entre os detentores dos mais baixos índices de leitura, causa e efeito da desnorteante má qualidade de nosso sistema educacional, principal matriz dos males que nos afligem, entre eles a má qualidade da mão de obra, comprometendo nossa competitividade, desenvolvimento e paz social.

O envolvimento direto da Academia, por razões logísticas óbvias, se concentrará no território baiano, declinante no seu histórico papel de matriz da cultura nacional.

Em Salvador e Região Metropolitana, sem prejuízo da indiscutível liderança que cabe às prefeituras, esperamos que entidades públicas e privadas, pessoas físicas e jurídicas se voluntariem para, conosco, liderarem a criação de várias unidades no curso do corrente ano, sobretudo em bairros populares, como Itapoã, Nordeste de Amaralina, Liberdade, Alagados, Paripe, Cajazeiras, etc.. Os horários de funcionamento das bibliotecas são os mais flexíveis, observadas as peculiaridades ambientais de cada logradouro. Da tarefa de fornecer os livros incumbir-se-á nossa Academia de Letras, estimando-se uma obtenção de pelo menos cem mil exemplares para as unidades da Região Metropolitana de Salvador. Convênio, para instruir os funcionários das unidades, deve ser feito com os cursos de Biblioteconomia, com associações de moradores, centros religiosos, ou com quem queira abrir uma janela de sua residência para emprestar, receber ou escambar livros. O custo de cada unidade pode variar significativamente, restringindo-se ao aluguel do espaço e à contratação de pessoal, mínimo, no caso das pequenas comunidades.

Aos que se deixam imobilizar pelo pessimismo, de modelo facilmente previsível, composto de duas vertentes: 1- numa terra de analfabetos, quase ninguém terá interesse na leitura; 2- os livros rapidamente se esgotarão porque não serão devolvidos, respondemos com o conhecido caso real-imaginário de marketing, segundo o qual dois fabricantes de sapatos do Rio Grande do Sul mandaram pesquisar o mercado do vizinho Paraguai, com o propósito de implantar ali uma fábrica. Os avaliadores chegaram a conclusões opostas. Enquanto o primeiro concluiu: “Não vale a pena investir no mercado do Paraguai, porque ali todos andam descalços”, o segundo foi taxativo: “O Paraguai é um grande mercado potencial porque quase toda a sua população anda descalça.”

Entre as muitas e imagináveis virtudes do Projeto, sobressai-se a permanente discussão sobre a conduta ética a ser observada pelos mutuários dos livros, pondo em relevo a crítica demolidora à tendência de alguns que querem levar vantagem em tudo.

Tem razão o Poeta dos Escravos ao concluir que o livro é um “audaz guerreiro que conquista o mundo inteiro sem nunca ter Waterloo”.

Joaci Góes,  escritor e conferencista. Presidente da Academia de Letras da Bahia

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