Tatus infectados transmitem, hanseníase e outras doenças

Tatus infectados transmitem, hanseníase e outras doenças

Uma pesquisa desenvolvida nos Estados Unidos, pelo pesquisador Richard W. Truman, comprovou que cerca de um terço dos casos de  hanseníase ( também chamada de lepra)  que aparecem a cada ano no país é resultado do contato com tatus infectados. No Brasil, um estudo semelhante foi realizado no Espírito Santo e mais de 90% dos casos analisados na rede hospitalar no Estado estavam relacionados à manipulação do tatu infectados com bacilos transmissores de hanseníase.

Outro estudo sobre o assunto teve participação de pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), da Escola Politécnica Federal de Lausanne (Suíça) e da Universidade de Leiden (Holanda), Além dos cientistas da FMRP-USP e da Universidade Estadual do Colorado.

No oeste do Pará, 62% dos tatus estão infectados com o bacilo causador da  hanseníase – uma doença contagiosa que pode provocar danos graves aos nervos e à pele.

De acordo com os autores da pesquisa, publicada  na revista científica Plos Neglected Tropical Diseases, já se sabia que os tatus (Dasypus novemcinctus) podem transmitir a humanos o Mycobacterium leprae, bacilo causador da hanseníase, a partir de casos relatados no sul dos Estados Unidos.

Segundo  a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem o segundo maior número de casos de hanseníase no mundo. Em 2016, 25.218 novos casos foram diagnosticados. Apenas a Índia teve um número maior de novos casos registrados naquele ano: 135.485. O Brasil concentra 92,2% dos casos de hanseníase na América do Sul.

Um total de 40 municípios do Piauí já registrou mais de 100 casos de micose pulmonar, transmitida por um fungo que reside no solo. O fungo fica depositado no tatu, animal silvestre muito consumido e comercializado e que, ao ser capturado por seres humanos, transmite a doença.

“Esses casos são uma mescla, entre o manejo do tatu e escavação de poços tubulares”, explica Fabiano Pessoa, médico veterinário e responsável pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

No Piauí, é comum, sobretudo nas estradas no Sul do Estado, o comércio ilegal de caças como o tatu e outros animais silvestres. O manejo e consumo do animal, além de crime ambiental, podem transmitir diversas doenças para os seres humanos.

O Ibama faz um alerta para que a população não consuma carne de tatu, que pode provocar micose pulmonar e, de acordo com pesquisas recentes nos Estados Unidos e Espírito Santo, no Brasil, os bichos são depósitos de micróbio transmissor da hanseníase.

Além disso, o tatu ainda é reservatório da Doença de Chagas e de outras verminoses. No Piauí, ainda não há registros comprovados de casos de hanseníase que tenham ligação com o manejo e consumo do tatu.

“Não temos porque não há pesquisas conclusivas nesse campo ainda. Mas estamos fazendo esse alerta, justamente para que possamos nos prevenir para que casos venham acontecer”, diz Fabiano Pessoa.

O Ibama alerta ainda sobre a existência de mais de 150 doenças que podem ser transmitidas de animais para seres humanos e vice-versa, conhecidas como zoonoses. Pelo menos 70% das doenças infecciosas, como gripe e Aids, podem ser transmitidas de animais para humanos, mas no caso da hanseníase, um aspecto diferenciado é que a transferência do bacilo pode se dá nas duas direções.

Esses animais, quando em seu habitat, exercem papel importante no processo de manutenção do equilíbrio ambiental, sendo pequenas as chances de transmissão de suas doenças aos seres humanos.  O tatu por exemplo está em perigo de extinção e não deve ser abatido, no entanto, quando adquirido do tráfico e levado as residências, o risco de contaminação por inúmeros agentes infecciosos assume níveis elevados, devido ao contato direto entre o ser humano e animal silvestre.

Embora não existam provas de que o tatu é um reservatório natural para a transmissão de hanseníase no Brasil, de acordo com os autores do estudo, a presença do bacilo nos animais preocupa, já que parte da população da Amazônia brasileira tem o hábito de caçar o tatu, que faz parte da dieta local.

A bactéria da hanseníase pode viver no nariz das pessoas e ser espalhada em gotículas quando o indivíduo espirra, tosse, ou respira.

Segundo, Marco Andrey Frade, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto em entrevista ao Jornal Estadão, a hanseníase é mais que uma doença negligenciada: é uma “doença invisível”. “É uma doença que não causa dor, inicialmente. A pessoa perde a sensibilidade ao tato, ao calor, ao frio e à dor. Tudo é silencioso e a doença incapacita lentamente. Ela também não mata, nem tem uma fase aguda – o que acaba contribuindo para que não sejam tomadas muitas providências”, disse.

 

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