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Saúde mental e violência ampliam pressão sobre profissionais de saúde

Levantamento aponta alto esgotamento emocional entre médicos de UTI, enquanto agressões no ambiente de trabalho reacendem debate sobre proteção e segurança dos profissionais

A sobrecarga de trabalho, a exposição constante a situações críticas e os episódios de violência estão entre os fatores que afetam a saúde mental dos profissionais de saúde no Brasil. Às vésperas do Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro, levantamentos sobre esgotamento emocional e propostas em discussão no Congresso Nacional evidenciam desafios relacionados às condições de trabalho e à segurança de médicos e profissionais de enfermagem.

Um levantamento da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), realizado em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), ouviu 2.338 médicos que atuam em unidades de terapia intensiva (UTIs) de 26 estados e do Distrito Federal. Entre os participantes, 48,5% apresentaram alto nível de esgotamento emocional e 31,2%, desgaste moderado. Ao todo, 79,7% registraram níveis moderados ou elevados de exaustão.

A pesquisa também identificou algum grau de despersonalização em 45,6% dos entrevistados, caracterizada pelo distanciamento emocional em relação a pacientes e colegas. Outros 46,4% relataram baixa satisfação profissional. Segundo a Amib, jornadas prolongadas, contato frequente com situações de dor e morte, decisões rápidas e limitações de infraestrutura estão entre os fatores que podem contribuir para esse cenário.

A preocupação se estende a outras categorias. Dados divulgados pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) apontam que o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2025, considerando diferentes atividades profissionais. Na enfermagem, o órgão destaca a influência de jornadas extensas, equipes reduzidas, elevada carga emocional e violência no ambiente de trabalho.

Para Raul Canal, presidente da Anadem (Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética), o problema exige uma análise que considere não apenas a saúde individual dos trabalhadores, mas também as condições em que a assistência é prestada. “Não é possível analisar o esgotamento do profissional de saúde apenas como uma questão individual. Existe uma relação direta entre carga de trabalho, ambiente institucional, exposição a situações de tensão e riscos e capacidade de manter uma assistência segura e equilibrada”, afirma.

O desgaste prolongado também pode comprometer a concentração, a comunicação e a tomada de decisões durante o atendimento. Nesse contexto, Canal ressalta que a prevenção do adoecimento dos profissionais deve integrar as estratégias institucionais de segurança do paciente, sem transferir aos trabalhadores a responsabilidade por problemas estruturais dos serviços de saúde.

Violência agrava cenário

Além do desgaste emocional, ameaças e agressões representam outro fator de insegurança para quem atua na assistência. Em julho de 2026, o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei 2.672/2025, originado do PL 6.749/2016, que prevê o aumento de penas para crimes cometidos contra profissionais de saúde e educação no exercício de suas funções ou em decorrência delas. Como o texto recebeu alterações, retornou à Câmara dos Deputados para nova análise.

A proposta abrange delitos como ameaça, lesão corporal, constrangimento ilegal e homicídio, com agravamento das punições conforme as circunstâncias. A discussão legislativa ocorre em meio à necessidade de ampliar a proteção dos trabalhadores, especialmente nos serviços que atendem situações de urgência e emergência.

Na avaliação de Canal, o enfrentamento da violência deve combinar responsabilização criminal e medidas institucionais capazes de reduzir a exposição dos profissionais a situações de risco. “A resposta não pode se limitar ao aumento de penas depois que a violência acontece. É necessário trabalhar com prevenção, protocolos de segurança, canais de acolhimento e condições adequadas para que o profissional possa exercer sua função sem medo. Proteger quem cuida também contribui para proteger o paciente”, acrescenta.

ANADEM

Criada em 1998, a Anadem atua na defesa dos profissionais da saúde e promove o debate sobre temas relacionados ao exercício da medicina e da odontologia. A entidade realiza análises técnicas e propõe soluções em áreas de interesse da categoria, com destaque para o campo jurídico.

 

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