Sangue de pacientes curados da Covid-19 pode ajudar no tratamento

Sangue de pacientes curados da Covid-19 pode ajudar no tratamento

 

Uma notícia de esperança que pode trazer esperança para muita gente. O sangue de pacientes curados pode ajudar nos casos graves da Covid-19. O tratamento está sendo testado em outros países e foi aprovado neste sábado (4) para ser usado por um grupo de médicos brasileiros.

Quem se recupera da Covid-19 pode levar no sangue a defesa contra o novo coronavírus. São os chamados “anticorpos neutralizantes”, porque ajudam a inibir a ação do vírus. Uma esperança para doentes em estado grave que lutam para sobreviver nas UTIs.

“Há um número enorme de pacientes que não responde a nada e acaba falecendo. Então se nós queremos mudar esses resultados, nós precisamos fazer alguma coisa diferente, não vamos ficar assistindo esse grupo de pacientes que não responde e que acaba falecendo”, fala o diretor do Instituto do Cérebro, Paulo Niemeyer.

O sangue é composto por parte sólida onde ficam os glóbulos vermelhos e outra, líquida, chamada plasma. O plasma é composto de água e proteínas e carrega também os anticorpos criados no contato por diversos vírus.

O que os médicos estudam é a coleta de plasma de pacientes de Covid-19 curados para a infusão em doentes em estado grave.

“Esses anticorpos, uma vez recebidos, vão auxiliar, eles não vão matar o vírus, eles vão auxiliar aquela pessoa a se defender e a melhorar, a estimular o seu aparelho imunológico, contra a agressão inflamatória do vírus”, fala a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, Margareth Dalcomo.

A terapia de infusão de plasma foi aprovada, de forma experimental, pela Agência Reguladora de Medicamentos, nos Estados Unidos, e está em teste em Nova York. E a experiência chinesa, com resultado em pacientes graves, indica que pode dar certo.

A técnica não é nova e já foi usada com sucesso em surtos de outras infecções respiratórias, como a pandemia do vírus influenza H1N1, em 2009, e na epidemia de Síndrome Aguda Respiratória, a SARS, em 2003.

“Diante de tudo hoje que nós sabemos, a recuperação desses indivíduos e a redução da mortalidade, eu acho que essa é uma estratégia que definitivamente deve ser explorada”, fala o oncologista, membro da Academia Nacional de Medicina, Daniel Tabak.

“Eu acho que é promissora, seria absolutamente justificável numa situação dessa, para a qual nós ainda não temos nenhuma terapêutica que seja efetivamente validada”, explica Maragareth Dalcomo.

Os médicos acreditam que o plasma de pacientes curados pode criar defesa contra o vírus, além de ajudar a controlar a inflamação dos pulmões, coração e outros órgãos vitais. Isso aumentaria muito as chances de pacientes em estado grave e encurtaria o tempo de recuperação nos respiradores. Com as UTIs já sobrecarregadas, os hospitais com pesquisa de ponta em São Paulo e hemocentros se mobilizam para começar os estudos.

A técnica precisa de autorização da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Um consórcio dos hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês, com a Universidade de São Paulo recebeu aprovação hoje.

“Se a terapia funcionar como nós estamos esperando, dentro dos parâmetros que nós estamos esperando, ela deve ser útil pra evitar que um grande número de pessoas vá pra UTI, que é justamente aonde tá o maior gargalo. O objetivo da pesquisa, entre outras coisas, é claramente diminuir o número de pacientes que necessitem de suporte de terapia intensiva”, explica do diretor de pesquisa do Hospital Albert Einstein, Luiz Vicente Rizzo.

O Hemocentro do Rio também faz estudos sobre essa técnica. “A gente espera que os benefícios sejam uma redução da mortalidade, melhora da evolução, menor tempo de permanência num hospital, isso é o que a gente espera que sejam os benefícios”, fala o diretor do Hemorio, Luiz Amorim.

Nesta sexta-feira (3), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou uma nota técnica sobre o tema. A Anvisa reconhece que o plasma tem potencial de ser uma opção para o tratamento da Covid-19. Mas diz que o tamanho limitado das amostras e o desenho dos estudos impedem a comprovação definitiva sobre a eficácia.

Portanto, a Anvisa disse que é papel dela alertar que não existem evidências científicas conclusivas sobre a eficácia do tratamento e que os estudos clínicos com o plasma para Covid-19 não precisam ser aprovados pela Anvisa.

O Ministério da Saúde disse que realiza uma revisão da literatura científica para avaliar se há dados suficientes e robustos a respeito da eficácia da utilização da técnica e que está em contato com centros hemoterápicos, que deram início a protocolos de pesquisa. Se houver evidências da efetividade de novas terapias, o ministério diz que pode compartilhar orientações para o uso em serviços de saúde.

“Eu entendo hoje que a maior dificuldade realmente vai ser definir aqueles doadores que de fato são convalescentes. Temos que ter critérios, nós temos que refletir sobre isso, exatamente qual o melhor doador, qual o melhor momento, o fato é que o tempo urge. E nós precisamos fazer isso no intervalo mais curto de tempo”, explica Tabak.

O diretor científico do Hemocentro de Ribeirão Preto vai coordenar um estudo com 45 pacientes, no interior de São Paulo.

“Normalmente com as infecções virais, nós todos produzimos anticorpos contra os vírus que existem. Esse é o princípio, por exemplo, da vacina. A vacina faz com que previamente, antes que a gente entre em contato com o vírus, já tenha anticorpos contra um determinado vírus. Mas isso a gente ainda não tem para o novo coronavírus. Então a ideia é a gente poder ajudar ou adiantar a formação de anticorpos de outras pessoas que já tiveram a infecção, já se curaram, tem esses anticorpos em circulação e a gente pode transfundir ou transplantar esses anticorpos de alguém curado pra alguém que ainda está enfrentando a infecção”, diz o professor da USP de Ribeirão Preto, Rodrigo Calado.

“Nós não vamos ter resultados diferentes, se nós ficarmos fazendo tudo sempre igual. Nós precisamos mudar, precisamos correr risco, mas tem risco, é possível que tenha, mas o risco maior é não fazer nada porque os pacientes estão morrendo”, completa Niemeyer.

Fonte: Jornal Nacional

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