Qualidade do ar afeta a saúde dos animais domésticos

Qualidade do ar afeta a saúde dos animais domésticos

ISABELA MENA
da Revista da Folha

Com a chegada do outono, a cachorrada comemora. Brisa e temperaturas mais amenas tornam qualquer passeio mais agradável até mesmo para os donos. Mas o clima atípico das últimas semanas, calor intenso e baixa umidade do ar, tem dificultado a dispersão dos poluentes na atmosfera e muitos bichinhos tiveram de trocar o passeio no parque pelo programa de que menos gostam: visitar o veterinário.

No Hospital Veterinário Sena Madureira o número de casos de animais domésticos com queixas relacionadas à poluição aumentou 30% nesse período. De acordo com o veterinário Mário Marcondes, cardiologista do hospital, os sinais mais comuns são olhos vermelhos e lacrimejantes, mucosa ressecada, coriza e tosse, tanto em gatos como em cachorros. "Nos animais que já têm algum tipo de doença respiratória crônica, como bronquite ou asma, os sintomas são mais severos, como falta de ar."

É o caso de Josie, uma dachshund de 11 anos que há cinco apresentou os primeiros sinais de bronquite crônica. "Começou com uma tosse que foi piorando. Ela tinha falta de ar, ficava cansada", lembra a digitadora Vilma Gomes, 43, dona da cadelinha. 

Crise controlada, Josie toma remédios para o mal que aparece principalmente em dias secos e poluídos. E sempre volta ao veterinário para ajustar a dosagem dos medicamentos e aplicar inalação. 

"Se ela está com crise de bronquite, é incrível, a gente percebe a dificuldade de respirar. Ela fica cansada, ofegante e com o nariz mais seco", conta Vilma que, por sugestão médica, faz inalação em casa até duas vezes ao dia. Como a cadela não gosta muito de ficar com o aparelho no focinho –assim como provavelmente nenhum outro animal–, outra recomendação do veterinário foi para que Vilma ficasse com Josie no banheiro, com o chuveiro quente ligado, já que o vapor ajuda a hidratar o trato respiratório. 

Em casa, aliás, começam os primeiros cuidados. Nos dias muito secos, o ar poluído irrita a mucosa ressecada e, por isso, o ambiente deve ser umidificado com toalhas molhadas, recipientes com água ou aparelhos próprios para essa função. 

Diante dos primeiros sintomas é importante levar o animal ao veterinário, mesmo que ele esteja aparentemente saudável. "É fundamental que se faça um diagnóstico adequado, já que o animal pode ter alguma doença de base por trás do sintoma", diz Marcondes. "Em cães e gatos com problemas respiratórios os vírus e as bactérias podem se instalar nas vias aéreas como narinas, traquéia ou pulmão e gerar infecções em diferentes partes do organismo."

Gatos

Bastante sensíveis às crises respiratórias, mesmo gatos que não tenham asma sofrem com as alterações climáticas. Segundo Luciana Deschamps, titular da clínica Sr. Gato e presidente da ONG Felinos do Brasil, eles muitas vezes apresentam tosse seca, semelhante a da asma brônquica. "Nesses últimos dias muitos gatinhos tossem e têm rinite."

Praticamente curada de uma forte alergia que literalmente tirou seu fôlego, a siamesa Miúcha, de sete anos, teve que retomar a medicação há algumas semanas, depois de uma nova crise respiratória. "Com esse tempo, ela teve outra crise. Você acorda às três da manhã com um bichinho que não consegue respirar", diz a instrutora de equitação Lígia Cardoso, 44. 

Nem só cães e gatos têm sentido os efeitos do clima e da poluição. "Onde eu trabalho, os veterinários que atendem os cavalos tiveram sete casos de cólica ligados ao calor, à falta de umidade e à baixa qualidade do ar", diz a instrutora de equitação. Não há quem agüente. 

Parque é vilão

O dia amanheceu lindo, o sol brilha e as nuvens estão todas no outro hemisfério. Nada mais saudável do que levar seu melhor amigo para um passeio no parque, certo? Errado, pelo menos em parte. Em dias muito quentes, mais ou menos entre as 11h e 16h, a qualidade do ar nos parques metropolitanos é ainda pior do que nas regiões onde há grandes avenidas e, conseqüentemente, um número grande de veículos poluindo o ar.

Isso acontece pela alta concentração de ozônio, composto que na camada atmosférica nos protege da ação dos raios ultravioleta e perto do solo é 

um gás poluente, capaz de causar ou agravar irritações nos olhos e nas vias respiratórias. 

"Em locais próximos das vias de tráfego, a concentração de ozônio é mais baixa porque ele é consumido por outros gases poluentes, a maioria emitida pelos veículos", explica Jesuíno Romano, gerente da divisão de tecnologia de avaliação da qualidade do ar da CETESB.

Ironicamente, praças e parques, que ficam protegidos da poluição das grandes avenidas, têm melhores condições para formação e concentração de ozônio, conclui Romano. 

Em dias de calor e poluição gritantes a melhor pedida é deixar o bichinho em casa, mas se a saída à rua for inevitável, fuja dos horários em que a insolação é maior e procure não andar tanto. "Não faça caminhadas longas e tenha sempre água, em bebedouro portátil ou uma toalha úmida para passar no animal", diz o veterinário Mario Marcondes, cardiologista do Hospital Veterinário Sena Madureira. "O calor o deixa mais ofegante e a dificuldade respiratória é maior." 

Esta reportagem foi publicada pela Revista da Folha em 08/04/2007

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