O mundo rumo a depressão econômica

O mundo rumo a depressão econômica
Fernando Alcoforado*
Efeitos do coronavírus aumentam temores de recessão seguida de depressão na economia mundial. As bolsas de valores tiveram uma semana difícil em todo o mundo e, na Europa, a recessão parece inevitável. A paralisia na China pesa fortemente no crescimento doméstico de inúmeros países porque as cadeias de suprimentos de multinacionais precisam de componentes fabricados nas fábricas chinesas para garantir sua produção. O consumo nos países ocidentais será fortemente afetado. Turismo, transporte aéreo, lazer já estão sofrendo as consequências. Uma recessão global seguida de depressão está se aproximando. Na Europa, isso parece inevitável. A economia mundial caminha na corda bamba e o coronavírus pode ser “o golpe de misericórdia” que a fará cair.
O mundo se paralisa à medida que o novo coronavírus se propaga. Aviões que não decolam, escolas fechadas no Japão e na França e eventos maciços suspensos na Suíça e outras partes do mundo. A economia mundial enfrenta seu maior risco de recessão seguida de depressão desde a crise financeira mundial de 2008. Considerando que cada pandemia ao longo da história sempre foi seguida de uma recessão global, não há razões para que seja diferente desta vez. Muito antes desta pandemia do coronavírus, o Fundo Monetário Internacional (FMI) advertiu que a recuperação mundial seria “frágil” e poderia sucumbir à menor turbulência. A situação se agravou ainda mais com o a expansão do coronavirus.
Enquanto a lista de medidas radicais para tentar conter o avanço do coronavírus crescem a cada dia, a epidemia originada na China se expande globalmente. Desde janeiro, fábricas pararam suas atividades na China e cidades inteiras foram confinadas. A Arábia Saudita deixou de receber peregrinos em direção a Meca. E na Itália houve suspensão de partidas do campeonato de futebol. Inclusive os Jogos Olímpicos de Tóquio estão em risco de não se realizar. No mundo há 101.988 contagiados pelo coronavírus e 3.491 morreram, segundo um balanço da AFP a partir de fontes oficiais. Muitos olhares se voltam para os Estados Unidos, onde até agora o coronavírus não atingiu com força, embora as autoridades sanitárias esperem que isto ocorra em breve. Para evitar este cenário, o presidente Donald Trump decidiu suspender os voos da Europa para os Estados Unidos que contribuirá fortemente para o aumento da recessão global.
Se há uma contaminação nos Estados Unidos, a economia norte-americana cairia em recessão imediatamente. O consumo, que representa 70% da atividade econômica nos Estados Unidos, poderia ser afetado bruscamente. Se a maior economia do mundo cair em recessão, o resto do planeta sofreria as consequências. A economia global e o PIB (Produto Interno Bruto) da China deverão crescer menos que o esperado em 2020. A projeção do FMI é de uma taxa de crescimento de 5,6% para a China  e de 3,3% para a economia mundial em 2020. O surto do coronavírus representa um grande abalo na economia chinesa, pois tem fechado fábricas e lojas, colocado regiões inteiras em quarentena e deixado muitos cidadãos trancados em suas casas por medo do contágio, reduzindo dessa forma o consumo e a atividade econômica. Vale lembrar que a China é a segunda maior economia do mundo, com uma participação no PIB global da ordem de 16%. As elevadas quedas sucessivas que se registram atualmente nas Bolsas de Valores de todo o mundo resultam fundamentalmente das expectativas dos investidores de recessão da economia mundial provocada pelo coronavirus.
Pandemia do coronavirus afeta cadeias globais de suprimentos, abala bolsas, derruba preços do petróleo e eleva preocupações sobre desaceleração das economias chinesa, norte-americana e global. O avanço da epidemia do novo coronavírus pelo mundo tem provocado abalos nos mercados globais e tem elevado as preocupações de investidores e governos sobre o impacto da propagação do vírus nas cadeias globais de suprimentos, nos lucros das empresas e no crescimento da economia global. Efeitos do coronavírus aumentam temores de recessão profunda na economia mundial. As bolsas de valores tiveram uma semana difícil em todo o mundo e, na Europa, a recessão seguida de depressão parece inevitável. A paralisia na China pesa no crescimento da economia mundial porque as cadeias de suprimentos de multinacionais precisam de componentes fabricados nas fábricas chinesas para garantir sua produção. O consumo nos países ocidentais será fortemente afetado. Uma recessão global seguida de depressão está se aproximando. Na Europa, isso parece inevitável.
Cabe observar que uma depressão econômica é caracterizada por um estado agravado de recessão sempre acarretando em consequências negativas para a economia mundial. Há diferenças entre recessão e depressão econômica. Recessão ocorre quando há declínio do Produto Interno Bruto (PIB) por dois ou mais trimestres consecutivos. Depressão econômica, por sua vez, consiste num longo período caracterizado por vertiginosa queda do PIB, numerosas falências de empresas, crescimento elevado do desemprego, escassez de crédito, baixos níveis de produção e investimento, redução das transações comerciais, alta volatilidade do câmbio, com deflação (queda nos preços) ou hiperinflação (alta de preços) e crise de confiança.  As maiores depressões econômicas da história foram as de 1815, 1873 e 1929. Entre elas, a mais grave foi, sem dúvidas, a de 1929.
A depressão econômica de 1929 ocorreu com o “crack” da Bolsa de Valores de Nova York  quando as ações das grandes empresas sofreram uma queda vertiginosa, perdendo quase todo o seu valor financeiro. As empresas foram forçadas a reduzir o ritmo de sua produção. Em função disso, promoveram a demissão em massa de trabalhadores. Com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, bancos e investidores perderam grandes somas em dinheiro. A situação dos bancos foi agravada pelo fato de os devedores estarem incapacitados de pagar suas dívidas. Isto, por sua vez, causou a queda dos lucros destas instituições financeiras. Muitas pessoas que utilizavam-se de bancos, temendo sua possível falência, removeram destes os seus depósitos e investimentos. Assim, várias instituições bancárias quebraram. O total de instituições bancárias fechadas durante a década de 1920 e de 1930 foi de 14 mil, um índice gigantesco.  Cerca de 30% dos trabalhadores norte-americanos que continuaram nos seus empregos foram obrigados a aceitar reduções em seus salários. Outro problema existente foi a grande deflação – queda do preço dos produtos e do custo de vida em geral. Os efeitos da Grande Depressão de 1929 foram sentidos no mundo inteiro porque a economia já estava suficientemente mundializada, aumentando ainda mais a miséria e o desemprego. A produção mundial reduziu-se em 40%, sendo que a diminuição da produção de ferro atingiu a 60%, a do aço 58%, a do petróleo 13% e a do carvão 29%. Estes efeitos atingiram diferentes intensidades em cada país. Este cenário pode se repetir no momento atual.
Estamos, portanto, diante de uma crise fundamental do capitalismo como ocorreu com a depressão de 1929. Nossa era é uma em que as enormes e concentradas forças econômicas estão sendo chamadas a agir em tempos de crise. Os responsáveis pela condução da economia mundial, hoje, não têm uma solução nas mãos. Os governos dos países capitalistas centrais não sabem como salvar o sistema da débâcle econômica generalizada que está em curso agravada pelo coronavirus. Para solucionar a crise atual, seria necessário realizar uma profunda mudança rumo a uma nova economia mundial. Macabramente, na década de 1930 do século XX, já havia um programa para a solução da crise: a preparação da guerra. A crise econômica mundial que se instalou em 1929 só terminou com a eclosão da 2ª Guerra Mundial.  Na atualidade, a humanidade terá que enfrentar uma nova conflagração mundial para salvar o sistema capitalista mundial da debacle iminente?
E o Brasil? A economia do país é sensível ao que acontece na China, seu principal parceiro comercial e, também, nos Estados Unidos. Uma desaceleração geral da economia mundial produzirá efeito considerável sobre as exportações brasileiras e sobre as perspectivas de crescimento da frágil economia nacional que está estagnada desde 2014 se defrontando com uma recessão endêmica. Se são catastróficas as perspectivas para a economia mundial rumo à depressão econômica, são, também, igualmente catastróficas para a economia brasileira.
* Fernando Alcoforado, 80, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017),  Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).

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