O Coronavírus e a imprevidência brasileira

O Coronavírus e a imprevidência brasileira

Artigo publicado na Tribuna da Bahia, edição de 05.03.2020.
Joaci Góes

Para o eminente historiador de cidades Pedro de Almeida Vasconcelos!

Quem não dispuser de outro elemento, além das preocupações que os brasileiros exibem, relativamente à possibilidade de expansão do coronavírus entre nós, seria tentado a supor que somos um povo sensivelmente precavido, em razão da baixa letalidade, 2,5%, desse flagelo, potencialmente ameaçador, cuja superação é questão de poucos meses, em razão da orquestrada reação internacional
A verdade é que há dezenas de perigos rondando as nossas vidas muito mais temíveis do que essa famigerada pandemia, cuja virulência maior se manifesta na redução do crescimento econômico mundial, de 2,8% para 2,3%, no corrente ano, queda de 0,5%, que representa cerca de 16 trilhões de dólares, mais de sete vezes o total do PIB brasileiro para 2020. As consequências fatais dessa redução, para a vida de muitas pessoas, mundo afora, inclusive para os brasileiros, particularmente os mais pobres, serão infinitamente maiores do que as mais pessimistas previsões a respeito da extensão e intensidade do mal chinês. Na improvável hipótese de que venham a perecer mil brasileiros, vitimados pelo coronavírus, essa mortalidade seria insignificante diante de dezenas de outras causas, naturais e acidentais, que respondem por parcela dos três milhões de pessoas que, anualmente, morrem no Brasil.
Em face das recentes mortes ocasionadas por deslizamento de terras no Sudeste do País – Espírito Santo, Rio e São Paulo -, produzido por pesadas chuvas, vamos nos concentrar nessa ocorrência, perfeitamente previsível, para evidenciar o contraste entre o infantil temor da letalidade do coronavírus e nossa indiferença diante de tragédias que se repetem, com obscena regularidade, na vida de 4% dos brasileiros que vivem dependurados nas encosta das grandes cidades, aparecendo Salvador, nessa macabra olimpíada, em primeiro lugar, com o mais alto percentual de sua população habitando perigosamente. Quando, portanto, calcularmos a expressão da morte por desabamentos, no Brasil, não devemos fazê-lo relativamente ao total dos nossos pouco mais de duzentos milhões de habitantes, mas sobre os oito milhões de brasileiros cuja segurança residencial tem dependido mais do humor dos temporais do que da ação cautelar dos administradores urbanos.
A possibilidade de identificar quem corre risco de morrer, nas cidades brasileiras, vitima de deslizamento de terras, constitui capítulo elementar do conhecimento da avançada engenharia nacional. Tanto que nessa macabra seara Salvador aparece em primeiro lugar com um terço de sua população vivendo em situação entre pequeno, médio e grande risco de perecer soterrada sob o humor dos temporais. Torna-se, evidente, portanto, que um programa de investimentos destinado a vencer tamanho impasse constitui desafio superior ao minguado erário municipal, incapaz de superar uma problemática que vem se acumulando ao longo de séculos de imprevidência oficial, a maior das quais tem sido a coletiva e pública insensibilidade para reconhecer, sobretudo na sociedade do conhecimento em que estamos imersos, que o acesso a educação de qualidade é o primeiro e fundamental requisito para equipar o cidadão com os instrumentos de proteção de sua vida em todos os domínios de sua trajetória, inclusive de sua segurança, uma vez que a pobreza material decorre, exclusivamente, da precariedade educacional, campo em que o Brasil, em geral, e a Bahia, em particular, figuram na rabada dos povos civilizados. O resto é argumento populista que nasce da ignorância ou da má-fé, quando não da combinação desses dois componentes.
Na contramão da compreensível celeuma universal para vencer um mal que conta, na linha de frente do seu combate, com a destacada contribuição de uma cientista baiana, Jaqueline Góes de Jesus, é de estarrecer o bovino conformismo geral com males muito mais lesivos à nossa segurança física e emocional que, não obstante, prosperam sem alterar nosso humor e nossas rotinas.
Essa imprevidente postura traz-me de volta o aforismo de autor que desconheço, segundo o qual “dizer que o homem é um animal racional porque, vez em quando, age com sensatez, é o mesmo que dizer que o cão é peixe porque, vez em quando, nada”!

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