Especial Saúde no Ar | Sociedade, Democracia e Bem-Estar
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Resumo: O desalento é uma categoria estatística do mercado de trabalho, mas a sensação de que “não adianta tentar” também aparece em outras dimensões da vida social. Esta reportagem analisa, com dados e fontes oficiais, como perda de perspectiva, desconfiança e desistência podem se manifestar no emprego, na política, na educação, na saúde, na segurança e na relação com instituições religiosas.
O que importa em 30 segundos
- Em 2025, o Brasil tinha cerca de 2,9 milhões de pessoas desalentadas no sentido técnico usado pelo IBGE.
- O mercado de trabalho melhorou: a taxa média anual de desocupação caiu para 5,6% em 2025 e o emprego formal continuou avançando em 2026.
- No 1º turno das eleições de 2026, a abstenção foi de 21,08%, equivalente a cerca de 33,4 milhões de eleitores; ausência às urnas, porém, não pode ser automaticamente interpretada como desalento político.
- Na educação, 8,9 milhões de jovens de 15 a 29 anos não trabalhavam, estudavam nem se qualificavam em 2024.
- Na segurança, pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública/Datafolha encontrou 41,2% dos entrevistados relatando percepção de facções ou milícias no bairro onde vivem.
- Na saúde, o SUS ampliou procedimentos e cirurgias, mas o próprio poder público reconhece que o acesso a especialistas e o tempo de espera continuam sendo desafios em diferentes regiões.
Há uma diferença importante entre estar insatisfeito e estar desalentado.
O insatisfeito reclama, protesta, procura alternativas e cobra respostas. O desalentado atravessa outra fronteira: depois de tentar — ou de concluir que tentar será inútil — começa a desistir.
Na estatística oficial brasileira, “desalentado” tem significado específico. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) utiliza o termo para pessoas fora da força de trabalho que gostariam de trabalhar e estariam disponíveis, mas deixaram de procurar emprego por razões relacionadas às condições do mercado, à falta de experiência ou qualificação, à idade ou à inexistência de trabalho na localidade.
Nesta reportagem, o Saúde no Ar amplia a palavra como recurso editorial, sem confundir essa interpretação social com a definição estatística oficial. A pergunta é mais abrangente: o que acontece quando parcelas da população passam a acreditar que procurar trabalho, estudar, votar, buscar atendimento, denunciar o crime ou participar das instituições já não produz o resultado esperado?
O desalento que podemos medir
O Brasil chega a 2026 com uma aparente contradição. Os indicadores do mercado de trabalho melhoraram de forma relevante, mas milhões de pessoas ainda permanecem fora da busca ativa por emprego.
Segundo o IBGE, a taxa média anual de desocupação foi de 5,6% em 2025, o menor resultado da série anual iniciada em 2012. No mesmo ano, a população desalentada caiu 9,6%, mas ainda somava aproximadamente 2,9 milhões de pessoas.
Em agosto de 2026, o Novo Caged registrou estoque de 48,24 milhões de vínculos formais e saldo de 1,13 milhão de empregos entre janeiro e agosto. O avanço precisa ser reconhecido. Ao mesmo tempo, a informalidade ainda alcançava 37,3% da população ocupada no primeiro trimestre de 2026.
Isso ajuda a mostrar que possuir mais empregos não significa automaticamente reconstruir todas as expectativas em relação ao futuro. Trabalho é renda, mas também autonomia, identidade, pertencimento e perspectiva.
Quando alguém entrega currículos, acumula negativas e finalmente para de procurar, o problema deixa de ser apenas econômico. Surge uma percepção de impotência. É justamente nesse ponto que a palavra desalento ganha força para a reflexão social.
Os desalentados da política
O Brasil realizou, em 4 de outubro de 2026, o primeiro turno das eleições gerais. O Tribunal Superior Eleitoral registrou 158.745.463 eleitores aptos. Cerca de 33,4 milhões não compareceram às urnas, uma abstenção de 21,08%.
É importante fazer uma distinção: não é correto afirmar que todos os eleitores ausentes sejam politicamente desalentados. Doença, trabalho, viagem, dificuldade de deslocamento e inúmeros outros motivos podem explicar a ausência.
Mas a abstenção ocorre em um ambiente de desgaste de confiança em instituições. Pesquisa Datafolha divulgada em setembro de 2026 mostrou que 48% dos entrevistados afirmavam não confiar no STF, 45% diziam não confiar nos partidos políticos e outros segmentos também apresentavam níveis relevantes de desconfiança institucional.
Desconfiança, por si só, não significa rejeição à democracia. Criticar governos, tribunais, parlamentos, partidos e autoridades faz parte de uma sociedade democrática. O sinal de alerta aparece quando a crítica se transforma em convicção de inutilidade:
“Todos são iguais.”
“Nada muda.”
“Meu voto não faz diferença.”
É aí que podemos falar, editorialmente, em desalento político: não como uma categoria eleitoral oficial, mas como a perda da expectativa de que a participação cívica possa produzir resultados.
Nenhum campo ideológico possui monopólio sobre esse fenômeno. A reconstrução da confiança depende de transparência, prestação de contas, previsibilidade das regras, fiscalização, capacidade de entrega de políticas públicas e respeito às instituições democráticas.
Educação: quando estudar deixa de significar futuro
Talvez uma das formas mais preocupantes de perda de perspectiva apareça entre os jovens.
Em 2024, o Brasil possuía cerca de 48 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos. Desse total, 18,5% — aproximadamente 8,9 milhões — não trabalhavam, estudavam ou se qualificavam, segundo o IBGE.
Os dados mais recentes também trazem avanços. Entre 2022 e 2025, de acordo com o Inep, a reprovação no ensino médio público caiu 62%, o abandono escolar diminuiu 61% e a distorção idade-série recuou 28%.
Esses avanços não eliminam o desafio de manter o jovem não apenas matriculado, mas aprendendo e enxergando futuro na escola.
O desalento educacional pode começar antes da evasão formal. Ele aparece quando o estudante permanece na sala de aula, mas já não percebe relação entre esforço presente e oportunidade futura. Aprendizagem insuficiente, necessidade de trabalhar, violência, dificuldades familiares, gravidez precoce e ausência de perspectivas profissionais podem se somar.
Uma escola capaz de manter o aluno matriculado, mas incapaz de produzir aprendizagem, pertencimento e perspectiva, resolve apenas parte do problema.
Saúde: quando esperar também adoece
O Brasil possui uma das maiores estruturas públicas e universais de saúde do mundo. O SUS realiza vacinação, atenção básica, transplantes, oncologia, terapia intensiva, cirurgias e inúmeros procedimentos de alta complexidade.
Ao mesmo tempo, o acesso a consultas especializadas, exames e procedimentos ainda apresenta gargalos diferentes entre regiões.
Em 2026, o Ministério da Saúde informou que as carretas do programa Agora Tem Especialistas ultrapassaram 1 milhão de procedimentos. No primeiro semestre, o SUS também realizou cerca de 7,5 milhões de cirurgias eletivas, crescimento de aproximadamente 8% em relação ao mesmo período anterior.
Os dois lados da realidade precisam aparecer: há expansão de atendimento, mas persistem locais em que o cidadão enfrenta espera prolongada para chegar ao especialista, realizar um exame ou concluir um tratamento.
É nesse intervalo entre ter direito ao cuidado e conseguir recebê-lo no tempo adequado que pode surgir outra forma de desistência: pessoas que deixam de procurar ajuda porque acreditam que não serão atendidas.
Saúde pública de qualidade também significa impedir que alguém desista de cuidar de si mesmo.
Quando o território deixa de pertencer ao cidadão
Existe uma forma mais grave de exclusão: aquela em que o cidadão continua vivendo formalmente sob as leis do Estado, mas o território onde mora sofre influência ou coerção de grupos criminosos.
Pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública ao Datafolha, divulgada em 2026, encontrou 41,2% da população com 16 anos ou mais relatando perceber presença de facções ou milícias em seus bairros, o equivalente a 68,7 milhões de pessoas. Nas capitais, o índice chegou a 55,9%.
O dado precisa ser interpretado corretamente: trata-se da percepção declarada pelos entrevistados, e não de uma comprovação de domínio territorial sobre 41,2% da população.
Mesmo assim, a percepção é socialmente relevante. Onde grupos armados impõem regras informais, ameaçam moradores, interferem na circulação ou coagem atividades econômicas, o problema ultrapassa o tráfico de drogas. Atinge diretamente a liberdade.
Nesse ambiente surge um tipo silencioso de desalento: o cidadão que deixa de denunciar porque acredita que não será protegido.
Quando o medo substitui a confiança na lei, o crime organizado conquista mais do que território: conquista silêncio.
Religião: fé, pertencimento e liberdade de consciência
O Brasil também atravessa uma transformação religiosa.
O Censo 2022 mostrou que 56,7% das pessoas de 10 anos ou mais se declararam católicas. O levantamento também registrou expansão de grupos evangélicos e crescimento da parcela sem religião em relação ao Censo anterior.
Essas mudanças não podem ser interpretadas automaticamente como perda de fé ou desalento religioso. Declarar-se sem religião pode significar ateísmo, agnosticismo, espiritualidade sem vínculo institucional, mudança de tradição ou outras experiências individuais.
Há, contudo, uma discussão legítima sobre a relação entre religião, poder e política. A participação de cidadãos e lideranças religiosas no debate público é parte da democracia. O problema começa quando autoridade espiritual é utilizada para substituir a consciência individual, produzir coerção ou transformar a fé em instrumento de controle.
Também seria injusto ignorar o papel positivo exercido por milhares de igrejas, templos, terreiros e comunidades religiosas que oferecem acolhimento, alimentação, apoio familiar, recuperação de dependentes e redes de solidariedade.
A questão, portanto, não é religião contra secularismo. É liberdade de consciência contra qualquer forma de manipulação.
A mesma frase em lugares diferentes
Talvez seja possível reconhecer o fenômeno por frases que nunca aparecem nas planilhas estatísticas:
“Não adianta procurar emprego.”
“Não adianta estudar.”
“Não adianta votar.”
“Não adianta denunciar.”
“Não adianta reclamar.”
“Não adianta procurar o posto.”
“Não adianta participar.”
Quando o “não adianta” começa a atravessar diferentes dimensões da vida social, existe um problema maior do que desemprego, criminalidade ou abstenção eleitoral isoladamente.
Existe erosão da percepção de que nossas ações podem produzir consequências.
Uma democracia depende dessa crença. A escola depende dessa crença. O mercado de trabalho depende dessa crença. O sistema de saúde depende dessa crença. Uma comunidade também.
O perigo de culpar quem desistiu
É confortável responsabilizar o desalentado: dizer que faltou esforço, que deveria procurar mais, estudar mais, votar melhor, denunciar ou cobrar seus direitos.
Mas instituições também possuem responsabilidades.
Se durante anos uma pessoa procura oportunidades e encontra portas fechadas, sua desistência não pode ser analisada exclusivamente como fraqueza individual. Se o cidadão denuncia e sofre ameaça, não basta exigir coragem. Se o jovem permanece anos na escola sem aprender adequadamente, não basta dizer que deveria estudar mais. Se o paciente atravessa sucessivas etapas de regulação, sua angústia não é apenas impaciência.
O desalento frequentemente se forma em uma sequência:
expectativa → tentativa → frustração → repetição → desistência.
É nessa cadeia que políticas públicas e instituições precisam atuar.
Há razões para esperança — e os próprios números mostram isso
Uma reportagem sobre desalento não deve produzir mais desalento.
Os indicadores mostram que mudanças são possíveis. O desemprego caiu. O emprego formal cresceu. O abandono escolar diminuiu. A produção de procedimentos especializados e cirurgias aumentou. E o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 registrou queda de 8,2% nas Mortes Violentas Intencionais em 2025 na comparação com 2024, embora outros tipos de violência tenham continuado preocupantes.
Nada disso significa que os problemas estejam resolvidos. Significa que políticas públicas podem produzir resultados quando possuem continuidade, avaliação, metas e capacidade de chegar ao cidadão.
Combater o desalento é reconstruir progressivamente a relação entre esforço e resultado.
Quem procura trabalho precisa encontrar oportunidades e qualificação. Quem estuda precisa aprender e enxergar futuro. Quem adoece precisa ser atendido em tempo adequado. Quem denuncia precisa ser protegido. Quem mora numa periferia precisa possuir o mesmo direito à liberdade e à circulação. Quem vota precisa conseguir fiscalizar seus representantes. Quem acredita precisa exercer livremente sua fé — e quem não acredita deve possuir a mesma liberdade.
Editorial Saúde no Ar | Um país não pode desistir de seus cidadãos
Talvez exista um indicador de desenvolvimento que ainda não conseguimos medir adequadamente: a esperança.
Não a esperança abstrata, mas aquela construída quando uma pessoa percebe que vale a pena tentar novamente.
O desenvolvimento de uma sociedade não pode ser avaliado apenas pelo PIB, pelo número de empregos, hospitais ou escolas. Também precisa ser observado pela capacidade de oferecer ao cidadão a convicção de que sua participação importa.
Uma sociedade começa a adoecer quando seus cidadãos deixam de reclamar não porque os problemas foram resolvidos, mas porque desistiram de esperar solução.
O silêncio do desalentado pode ser mais perigoso do que a indignação do insatisfeito. Quem protesta ainda acredita que alguma coisa pode mudar. Quem desistiu talvez já não espere nada.
Por isso, enfrentar o desalento significa fortalecer emprego, educação, saúde, segurança, ética pública, liberdade de consciência e democracia ao mesmo tempo.
O verdadeiro progresso acontece quando o cidadão deixa de ser espectador da própria realidade e volta a acreditar que pode transformá-la.
Construindo uma Sociedade Saudável, Próspera e Sustentável.
Fontes e referências
- IBGE — PNAD Contínua: mercado de trabalho em 2025
- Ministério do Trabalho e Emprego — Novo Caged, agosto de 2026
- TSE — Eleições 2026 em números
- Agência Brasil — Abstenção no 1º turno das Eleições 2026
- Datafolha — Confiança em instituições, setembro de 2026
- IBGE — Jovens de 15 a 29 anos: estudo, qualificação e ocupação
- Inep — Indicadores do ensino médio público, Censo Escolar 2025
- Ministério da Saúde — Agora Tem Especialistas
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública — Percepção da presença de facções e milícias
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública — Anuário 2026
- IBGE — Censo 2022: religiões
Nota de transparência editorial: fora do mercado de trabalho, a expressão “desalentados” é utilizada nesta reportagem como conceito editorial para discutir perda de perspectiva e desistência social. Não se trata de uma categoria estatística oficial aplicada pelo IBGE à política, saúde, educação, segurança ou religião.















