Coronavírus e seus impactos sobre a economia mundial

Coronavírus e seus impactos sobre a economia mundial

 

Fernando Alcoforado*

Artigo do The Economist de 27/02/2020, sob o título The pandemic- The virus is coming (A pandemia- O vírus está chegando), informa que o coronavirus (covid-19) que atingiu a China no início de dezembro se espalhará por todo o mundo e que cerca de 25-70% da população de qualquer país infectado pode pegar a doença. A experiência da China sugere que, dos casos detectados, aproximadamente 80% serão leves, 15% precisarão de tratamento hospitalar e 5% exigirão cuidados intensivos. Especialistas dizem que o vírus pode ser de cinco a dez vezes mais letal que a gripe sazonal, que, com uma taxa de mortalidade de 0,1%, mata 60.000 americanos em um ano ruim. Em todo o mundo, o número de mortos pode estar na casa dos milhões.

Segundo o The Economist, todos esses resultados dependem muito do que os governos venham a fazer, como mostra a China. A província de Hubei, a origem da epidemia, tem uma população de 59 milhões de habitantes que já assistiu a mais de 65.000 casos com uma taxa de mortalidade de 2,9%. Por outro lado, o resto da China, que contém 1,3 bilhão de pessoas, sofreu menos de 13.000 casos, com uma taxa de mortalidade de apenas 0,4%. Mesmo antes de se espalhar fora de Hubei, o governo chinês impôs a maior e mais draconiana quarentena da história. As fábricas fecharam, o transporte público parou e as pessoas ficaram dentro de casa. Sem esta medida, a China já teria registrado muitos milhões de casos e dezenas de milhares de mortes.

Para o The Economist, a OMS- Organização Mundial da Saúde elogiou esta ação da China. Isso não significa, porém, que seja um modelo para o resto do mundo. Todas as quarentenas têm um custo não apenas na produção perdida, mas também no sofrimento daqueles que ficarão trancados. Como a China procura retomar sua economia relaxando a quarentena, ela pode muito bem ser atingida por uma segunda onda de infecções. Mesmo que muitos países não possam ou não copiar exatamente a China, sua experiência contém três lições importantes: 1) informar ao público; 2) retardar a propagação da doença; e, 3) preparar os sistemas de saúde para um aumento na demanda.

Segundo o The Economist, o melhor momento para informar as pessoas sobre a doença é antes da epidemia. Uma mensagem é a de que a fatalidade está correlacionada com a idade. Se a pessoa tem mais de 80 anos corre alto risco e se tem menos de 50 anos, não. Agora é o momento de convencer pessoas com 80% de casos leves a ficarem em casa e não correrem para um hospital. As pessoas precisam aprender a lavar as mãos com frequência e a evitar tocar no rosto. As empresas precisam adotar planos de ação que permitam que, se possível, seus trabalhadores trabalhem em casa e que algum deles substitua um trabalhador vital que esteja doente ou cuidando de um filho ou dos pais. O modelo é o de Cingapura, que aprendeu a lidar com o virus sars, outro coronavírus ao mostrar que a comunicação clara e precoce limita o pânico.

The Economist informa que a segunda lição da China é que os governos podem retardar a propagação da doença. Achatar o pico da epidemia significa que os sistemas de saúde fiquem menos sobrecarregados, o que salva vidas. Se, como a gripe, o vírus for sazonal, alguns casos poderão ser adiados até o próximo inverno. Até então, novas vacinas e medicamentos antivirais podem estar disponíveis.Os governos precisam se preparar e, também, as pessoas para o momento em que terão que incluir o cancelamento de eventos públicos, o fechamento de escolas, o escalonamento das horas de trabalho e assim por diante. Dadas as incertezas, os governos devem ser guiados pela ciência. As proibições de viagens internacionais parecem decisivas. Da mesma forma, se a doença se espalhou amplamente, como na Itália e na Coréia do Sul, as quarentenas de cidades inteiras oferecem pouca proteção a um custo alto.

Finalmente, The Economist informa que a terceira lição da China consiste em preparar os sistemas de saúde para o que está por vir. Os hospitais precisam de suprimentos de roupas, máscaras, luvas, oxigênio e drogas.. Eles precisam de um esquema de como reservar enfermarias, como lidar se os funcionários adoecerem e como escolher os pacientes a serem atendidos se estiverem sobrecarregados. Até agora, este trabalho deveria ter sido feito.

Texto de El Pais sob o título Qual seria o custo econômico de uma pandemia mundial? O armagedom em potencial dos vírus, disponível no website <https://brasil.elpais.com/…/28/econo…/1469723677_088744.html>, informa que bactérias e vírus esperam sua chance de ceifar as vidas de centenas de milhares de pessoas e devastar a economia do planeta. O HIV, desconhecido décadas atrás, matou mais de 30 milhões de seres humanos. Enquanto isso, o ebola, sem tratamento efetivo, provocou 11.310 mortes e perdas de 2,8 bilhões de dólares em três países da África que têm a fragilidade como principal componente de seu PIB. Esses recursos representam quase um terço dos cerca de 7 bilhões de dólares que, segundo o Banco Mundial, custou a luta global contra a doença.

Segundo o El Pais, a OMS calcula que uma pandemia de moderada a grave custaria 570 bilhões de dólares. Mas uma epidemia de extrema gravidade, como a peste negra —a maior praga da história, que enterrou 200 milhões de pessoas no século XIV— cortaria 5% do PIB. Ou seja, cerca de 4 trilhões de dólares. A ameaça parece próxima. A OMS publicou no ano passado uma lista de oito doenças (ebola, sars, mers, marburg, febre hemorrágica da Crimeia-Congo, febre de Lassa, febre do Vale de Rift e o vírus Nipah) que ameaçam se tornar uma epidemia junto com três (chikungunya, zika e uma febre asiática sem nome) que são um perigo próximo. Embora a principal ameaça seja uma pandemia de gripe [influenza], defende Tony Barnett, especialista da London School de Higiene e Medicina Tropical. Observe que a OMS não incluiu nesta publicação o Coronavirus (covid-19) que surgiu recentemente e inesperadamente.

Para o El Pais, em 2050 haverá 9,7 bilhões de pessoas. As cidades serão mais populosas, e a sociedade misturará pobreza, carência de infraestrutura básica, como abastecimento de água e esgotamento sanitário, e desigualdade social. Este é um ecossistema favorável a novos (e antigos) vírus que se espalharão com a facilidade. Na primeira década deste século, mais de dois bilhões de passageiros viajam por ano de avião, contra cerca de 68 milhões nos anos cinquenta que facilita a pandemia global. Tendo em vista prevenir riscos atuais e futuros, a OMS criou um fundo de 500 milhões de dólares para ser usado em surtos de doenças infecciosas que tendam a se tornar pandemias. Trata-se, entretanto, de um paliativo. Sem dúvida, haverá novos surtos porque estes recursos são insuficientes. Por isso seria mais importante investir em infraestrutura sanitária, em sistema de vigilância de doenças, em desenvolver e distribuir medidas preventivas, como as vacinas, argumentam Daniel Cadarette e David Bloom, professores da Escola de Saúde Pública de Harvard.

Segundo o El Pais, é exatamente a resistência antimicrobiana que ameaça a vida das pessoas e a economia mundial. Um estudo financiado pela ONG Wellcome Trust revela que, se até 2050 não forem tomadas medidas contra a resistência desses virus, serão perdidos 100 bilhões de dólares em produtividade e 10 milhões de vidas por ano. São mais mortes do que as provocadas em conjunto por câncer, diabetes, Aids, doenças diarreicas e acidentes de trânsito. Esta ameaça é tão grave que em setembro será discutida em Nova York na Assembleia Geral da ONU. Além disso, há outro dano profundo que é o de tirar as crianças da escola, fazer com que as pessoas evitem lugares públicos e locais de trabalho, mesmo que haja pouco risco de se infectar. Pesquisas evidenciam que mudar os hábitos e evitar ir ao trabalho, viajar ou fazer turismo durante uma epidemia podem provocar perdas econômicas substanciais. O sars —que foi um vírus viajante— reduziu em 2% o PIB do Leste Asiático no segundo trimestre de 2003.

O medo da doença paralisa a vida e também a economia. Milhões de seres humanos são deixados à própria sorte. Trata-se, entretanto, de algo que tem solução. Conseguir uma cobertura mínima universal da saúde exigiria o acréscimo de 100 bilhões de dólares aos 130 bilhões de dólares da ajuda oficial ao desenvolvimento. Uma solução possível ocorreria se todos os países de baixa renda aumentassem seus recursos fiscais em 20% recuperando o dinheiro escondido em paraísos fiscais e eliminando as isenções para multinacionais que reduziria a necessidade de recursos para alcançar a cobertura universal que passaria de 100 bilhões de dólares para 28 bilhões de dólares, explica Rafael Vilasanjuan, diretor de Análise e Desenvolvimento Global do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal). Essa diferença poderia ser coberta pelo orçamento do Banco Mundial ou da ONU.
Epidemia do Coronavirus afeta cadeias globais de suprimentos, abala bolsas, derruba preços do petróleo e eleva preocupações sobre desaceleração da economia chinesa e global. O avanço da epidemia do novo coronavírus pelo mundo tem provocado abalos nos mercados globais e tem elevado as preocupações de investidores e governos sobre o impacto da propagação do vírus nas cadeias globais de suprimentos, nos lucros das empresas e no crescimento da economia global.

Embora o maior número de casos confirmados e os principais impactos ainda estejam concentrados na China, os temores de uma pandemia intensificaram-se com autoridades pelo mundo lutando para prevenir a disseminação do vírus, que já foi registrado em cerca de 50 países, gerando interrupção de produção e consumo na China, e também a paralisação de algumas atividades em países como Coréia do Sul, Irã e Itália. OMS elevou hoje (28/02) o risco da epidemia de coronavírus no mundo para ‘muito alto’. A perspectiva de uma pandemia, após a propagação do coronavirus no Irã e na Itália, trouxe pânico para todos os países do mundo. O Brasil tem 182 casos suspeitos de coronavírus, de acordo com o boletim divulgado nesta sexta-feira (28/02) pelo Ministério da Saúde. O novo balanço não traz novas confirmações. Há somente um caso positivo. O levantamento aponta ainda que outras 71 suspeitas foram descartadas desde o início do monitoramento.

Efeitos do coronavírus aumentam temores de recessão na economia mundial. As bolsas de valores tiveram uma semana difícil em todo o mundo e, na Europa, a recessão parece inevitável. A paralisia na China pesa no crescimento doméstico porque as cadeias de suprimentos de multinacionais precisam de componentes fabricados nas fábricas chinesas para garantir sua produção. O consumo nos países ocidentais será fortemente afetado. Turismo, transporte aéreo, lazer já estão sofrendo as consequências. Uma recessão global está se aproximando. Na Europa, isso parece inevitável.

A economia global e o PIB (Produto Interno Bruto) da China deverão crescer menos que o esperado em 2020. A projeção do FMI é de uma taxa de crescimento de 5,6% para a China em 2020. Em 2019, o PIB chinês desacelerou para 6,1%, o menor crescimento em 29 anos. O surto representa um grande abalo na economia chinesa, pois tem fechado fábricas e lojas, colocado regiões inteiras em quarentena e deixado muitos cidadãos trancados em suas casas por medo do contágio, reduzindo dessa forma o consumo e a atividade econômica. Vale lembrar que a China é a segunda maior economia do mundo, com uma participação no PIB global da ordem de 16%.

As exportações chinesas de bens intermediários no segmento eletroeletrônico respondem por mais de 10% da produção global desses produtos. A produção de smartphones no primeiro trimestre de 2020 pode cair 12% se comparada ao mesmo período em 2019. Outros tipos de dispositivos, como monitores, TVs e notebooks também devem ter redução de milhões de unidades na produção. Dezenas de empresas multinacionais passaram a alertar seus acionistas que o surto afetará suas finanças, incluindo empresas como Apple, United Airlines, Mastercard, Toyota, Danone e Diageo.

No Brasil, foi suspensa a produção de celulares. A fábrica da LG em Taubaté (SP) e unidades da Samsung e da Motorola na região de Campinas tiveram produção suspensas, por falta de componentes eletrônicos que deveriam vir da China. A China é a principal fonte de componentes do Brasil. O país é um dos principais vendedores de chips, circuitos integrados e outras partes e peças que vão se tornar celulares, máquinas de lavar, televisores e diversos outros eletrônicos em outros países. De acordo com informações da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), metade das empresas brasileiras já têm problemas no recebimento de materiais da China. Do lado da exportação brasileira, o principal impacto tem sido nos preços das principais commodities. As cotações da soja, do petróleo e do minério de ferro têm diminuido diante do temor de uma desaceleração da economia mundial.

* Fernando Alcoforado, 80, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).

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