As soluções para lidar com a ruína da economia Global

As soluções para lidar com a ruína da economia Global
Fernando Alcoforado*
A globalização neoliberal teve início em 1990 em consequência da crise do sistema capitalista mundial com o declínio do processo de acumulação do capital em escala mundial agravada com a triplicação dos preços de petróleo em 1973 e de novo em 1979 e o enorme aumento nas taxas de juros americanas, que causou, na década de 1980, a chamada “crise da dívida externa” nos países capitalistas periféricos. A crise do sistema capitalista mundial se deu em várias escalas: política, economia, vida social, externa e internamente em todos os países. Toda a crise era demonstrada através do aumento do desemprego, da queda nos níveis de investimento, da redução da lucratividade do capital e da crise fiscal dos estados nacionais do pós-guerra até 1989. A resposta para isso foi a globalização neoliberal com base no qual foram adotadas novas ideologias, novas formas de administração, de gerenciamento e de produção.
O resultado da globalização neoliberal tem sido o aumento do desequilíbrio global no comércio, na poupança e no investimento e na desigualdade social materializada na excessiva concentração da riqueza em todo o mundo. A desigualdade social alcançou níveis alarmantes em todo o mundo. Thomas Piketty demonstrou que houve crescimento contínuo da desigualdade de riqueza desde a década de 1970, contrária à tendência dos 60 anos anteriores e muito mais acentuada e socialmente relevante do que a desigualdade de renda. De 1970 a 2010, o 1% mais rico (classes dominantes) detinha metade de toda a riqueza mundial, enquanto o 50% mais pobres (classes populares) ficava com meros 5%. O número de bilionários, segundo Piketty, aumentou de 1.011 com uma riqueza total de 3,6 trilhões em 1970 para 1.826 com um valor agregado de 7,05 trilhões em 2010. Em 2010, esse grupo possuía praticamente o mesmo que a metade mais pobre da humanidade. Cinco anos depois, açambarca mais do que o triplo (PIKETTY, Thomas. Capital in the twenty-first century. Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2014). A desigualdade social em todo o mundo torna insustentável a globalização neoliberal.
Os fatos da realidade demonstram que são poucos os que ganham com a globalização, entre os quais estão o sistema financeiro internacional, que aufere lucros astronômicos graças à ausência de regulamentação econômica e financeira global, e poucos países periféricos como China, Índia, Coreia do Sul e outros países asiáticos que conseguem atrair investimentos estrangeiros graças à mão de obra barata e legislação nacional favorável. Em contrapartida, perdem com a globalização neoliberal os países capitalistas centrais (Estados Unidos, da União Europeia e Japão) e outros países periféricos que enfrentam problemas de desindustrialização, aumento do desemprego, estagnação econômica e endividamento público crescente.
O fracasso da globalização neoliberal ficou materializado com a eclosão da crise mundial de 2008 que ocorreu nos Estados Unidos no setor dos empréstimos hipotecários que, imediatamente, se propagou para outras partes do sistema financeiro mundial, com uma rapidez e uma amplitude que surpreenderam o mercado. O Banco de Desenvolvimento Asiático estimou que os ativos financeiros em todo o mundo podem ter sofrido uma queda de mais de US$ 50 trilhões – um número equivalente à produção global anual. O sistema financeiro amargou prejuízos em uma escala que ninguém jamais previu.
O sistema financeiro mundial está em processo de desmoronamento com o inevitável colapso do dólar. No sistema financeiro internacional liderado pelo dólar norte-americano começa a acontecer a perda acelerada da confiança nesta moeda. Os dados sobre as reservas de divisas demonstram uma diminuição do papel do dólar. Em 2018, a parte do dólar nas reservas internacionais caiu até 61,7%, que é o nível mínimo nos últimos 20 anos. Nos últimos anos vários países têm buscado ativamente oportunidades de criar uma moeda de reserva alternativa e abandonar o dólar. O comércio de petróleo entre a Rússia e a China já é realizado sem a participação do dólar, Estes países intensificaram a extração de recursos e começaram a comprar mais ouro para se prepararem para o colapso da moeda norte-americana. A tendência de abandonar o dólar indica claramente a diversidade de moedas mundiais capazes de substituí-lo como, por exemplo, o euro e o Yuan chinês. Os prospectos para o futuro são de acelerada inflação monetária nos Estados Unidos, seguida de um colapso monetário internacional.
James Rickards afirma em sua obra The Death of Money (Penguin Random House UK, 2014) que o fim do dólar levará a três cenários: 1) sua substituição por uma moeda mundial (SDR- Direitos Especiais de Saque: uma moeda criada pelo Fundo Monetário Internacional usado para pagamentos entre países); 2) a adoção do padrão ouro; e, 3) desordem social. Destes três cenários acima citados, o cenário mais provável é o da desordem social quando os governos neofascistas e organismos financeiros mundiais atuarão com mão de ferro para controlar, respectivamente, as economias nacionais e o sistema financeiro global. O cenário de desordem social se imporá, não apenas pela impossibilidade da substituição do dólar pela moeda mundial (SDR) e da adoção do padrão ouro associado ao dólar e ao SDR, mas pelo provável fim do sistema capitalista mundial a partir de meados do século XXI conforme está demonstrado no artigo sob o título O fim do sistema capitalista mundial em meados do século XXI (ALCOFORADO, Fernando. O fim do sistema capitalista mundial em meados do século XXI. Disponível no website <https://www.academia.edu/…/O_FIM_DO_SISTEMA_CAPITALISTA_MUN…>, 13/06/2019). O fim do sistema capitalista mundial em meados do século XXI fará com que o sistema financeiro internacional chegue também ao fim nesta época.
O abandono do dólar como moeda de reserva mundial é impulsionado também pela possibilidade da explosão da bolha da dívida pública dos Estados Unidos que atingirá 140% do PIB até 2024. A previsão do Departamento de Orçamento do Congresso dos Estados Unidos é o de que o déficit fiscal deste ano seja de US$ 897 bilhões e, em 2022, exceda a marca do trilhão. Especialistas especulam que o governo norte-americano tem pouco tempo para reverter esta situação que, caso perdure, o país enfrentará uma crise em grande escala comparável à Grande Depressão dos anos 1930. Segundo o relatório do Instituto de Finanças Internacionais, a dívida global aumentou em 3,3 trilhões de dólares no ano passado, para 243 trilhões de dólares. Trata-se de um montante recorde três vezes superior ao PIB mundial. Quando esta bomba de vários trilhões de dólares plantada sob a economia mundial explodir, a crise será pior do que a de 2008. Caso a economia global não seja capaz de digerir essa enorme dívida, a crise subsequente levará o mundo à depressão econômica, à pobreza em massa, instabilidade geopolítica, agitação política e guerras.
Enquanto o sistema financeiro internacional caminha rumo à bancarrota, o sistema capitalista mundial caminha para seu fim em meados do século XXI. Esta constatação resulta do fato de que: 1) a evolução da taxa de lucro do sistema capitalista mundial de 1869 a 2007 apresenta declínio neste período com a tendência de alcançar lucro zero entre 2097 e 2142; 2) há declínio da taxa de lucro ao custo histórico do capital fixo das corporações dos Estados Unidos que, se for mantido nos próximos anos, esta taxa de lucro das corporações dos Estados Unidos alcançará zero em 2059; e, 3) a economia mundial apresenta queda contínua em seu crescimento de 1961 a 2007 que deve alcançar crescimento zero em 2057. Pode-se afirmar que, muito provavelmente, a taxa de lucro do sistema capitalista mundial terá valor zero a partir de 2057 e não 2097 e 2142 porque a taxa de lucro não poderia crescer além de zero em uma economia mundial com o Produto Bruto Mundial de valor zero, isto é estagnado, a partir de 2057. O sistema capitalista mundial será levado ao fim em meados do século XXI porque será estancado o processo de acumulação do capital quando a taxa de lucro mundial e o Produto Bruto Mundial alcançarem o valor zero.
As soluções para problemas relacionados com a ruina da economia mundial em meados do século XXI consistem basicamente em: 1) o estabelecimento de um sistema financeiro internacional estável não subordinado ao capital financeiro; 2) a implantação da social democracia em todos os países nos moldes dos países escandinavos (Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia e Islândia) em substituição ao capitalismo porque é o modelo de sociedade mais bem sucedido já implantado no mundo; e, 3) a constituição de um governo mundial para evitar o império de uma só potência e a anarquia de todos os países visando não apenas o ordenamento econômico em escala mundial, mas, sobretudo, criar as condições para enfrentar os grandes desafios da humanidade no Século XXI.
O estabelecimento de um sistema financeiro internacional estável não subordinado ao capital financeiro significa: 1) a adoção de uma moeda mundial que contemplaria a substituição do dólar pelo SDR como moeda de reserva global que deve ser utilizada para estabilizar o sistema financeiro internacional, substituir o dólar o mais rápido possível e não para salvar esta moeda como foi feito no passado; 2) cancelamento de boa parte da dívida soberana, considerada ilegítima, assim como de boa parte da dívida doméstica; 3) adoção de uma taxação correta para a renda das finanças e do capital; 4) restabelecimento de um verdadeiro controle público do sistema de crédito; 5) controle restrito dos fluxos de capital e uma luta efetiva contra os paraísos fiscais.
A implantação da social democracia em todos os países nos moldes escandinavos em substituição ao capitalismo se justifica porque é um modelo de sociedade que se caracteriza pela combinação de um amplo Estado de Bem-Estar Social com rígidos mecanismos de regulação das forças de mercado com capacidade de colocar a economia em uma trajetória dinâmica. O modelo nórdico ou escandinavo de social democracia poderia ser melhor descrito como uma espécie de meio-termo entre capitalismo e socialismo, sendo a tentativa de fundir os elementos mais desejáveis de ambos em um sistema “híbrido”. A escolha da social democracia escandinava como modelo de sociedade a ser adotado se deve ao fato de o relatório World Happiness Report 2013 da ONU mostrar que as nações mais felizes do mundo estão concentradas no Norte da Europa, com a Dinamarca no topo da lista entre os países escandinavos.
A constituição de um governo mundial visaria não apenas o ordenamento econômico em escala mundial, mas, sobretudo, criar as condições para enfrentar os grandes desafios da humanidade no Século XXI os quais consistem em: 1) Crises econômicas e financeiras em cadeia; 2) Revoluções e contrarrevoluções sociais em todo o globo; 3) Guerras em cascata; 4) Superpopulação mundial; 5) Pandemia mortal; 6) Mudanças climáticas extremas; 7) Crime organizado; e, 8) Ameaças vindas do espaço, cujas ações de caráter global para neutralizá-las são impossíveis de serem levadas avante pelos estados nacionais isoladamente e pelas instituições internacionais atuais.
Para viabilizar um governo mundial é preciso que, de início, seja constituído um Fórum Mundial pela Paz e pelo Progresso da Humanidade por organizações da Sociedade Civil de todos os países do mundo. Neste Fórum seriam debatidos e estabelecidos os objetivos e estratégias de um movimento mundial suprapartidário de massas pela constituição de um governo mundial e um parlamento mundial, democraticamente eleitos pelos povos do mundo inteiro, visando sensibilizar a população mundial e os governos nacionais no sentido de tornar realidade um mundo de paz e de progresso para toda a humanidade. Este seria o caminho que tornaria possível transformar a utopia do governo mundial em realidade. Sem a constituição de um governo mundial democrático, o cenário que se descortina para o futuro será o de desordem econômica, politica e social e da guerra de todos contra todos.
* Fernando Alcoforado, 79, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).

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