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Poder: como a influência e a dependência política retardam o desenvolvimento do bem-estar social dos brasileiros

Da ocupação de cargos públicos à escolha dos ministros da mais alta Corte do país, o Brasil enfrenta uma questão estrutural: até onde a política deve comandar o Estado?
Saúde no Ar | Análise Especial
Há uma diferença fundamental entre governar politicamente e transformar o Estado em extensão das relações políticas.
A primeira situação é inerente à democracia. Presidentes, governadores e prefeitos são eleitos justamente para escolher prioridades, formar equipes e implementar programas legitimados pelas urnas.
A segunda começa quando o acesso a cargos, recursos, decisões, contratos ou estruturas públicas passa a depender excessivamente de relações partidárias, pessoais, eleitorais ou de reciprocidade política.
É nessa fronteira que se encontra uma das questões mais relevantes para compreender as dificuldades históricas do desenvolvimento brasileiro.
Estudos sobre a administração pública brasileira já demonstraram que conexões políticas podem influenciar o acesso a posições públicas e que mecanismos de patronagem podem prejudicar a seleção de pessoas mais qualificadas quando a proximidade política substitui critérios de competência.
Isso não significa que toda indicação política seja necessariamente prejudicial.
Significa que existe um ponto de equilíbrio delicado entre governabilidade, confiança política, capacidade técnica e autonomia institucional.
E é justamente desse equilíbrio que emerge uma pergunta maior:
quanto custa ao cidadão um Estado no qual o acesso ao poder depende mais das relações políticas do que da qualidade das instituições?
O desenvolvimento depende da capacidade institucional
Desenvolvimento não significa apenas crescimento econômico.
Uma sociedade desenvolvida precisa transformar recursos públicos em:
saúde eficiente;
educação de qualidade;
segurança;
infraestrutura;
saneamento;
ciência;
tecnologia;
proteção ambiental;
oportunidades econômicas;
e serviços públicos capazes de responder às necessidades da população.
A existência de recursos, porém, não garante automaticamente bons resultados.
É necessário possuir capacidade institucional.
Isso significa planejamento, servidores qualificados, estabilidade administrativa, continuidade das políticas públicas, mecanismos de avaliação e estruturas capazes de sobreviver à troca dos governos.
Quando esses elementos são frágeis, o Estado pode possuir orçamento e ainda assim entregar resultados inferiores às necessidades da sociedade.
O desenvolvimento, portanto, depende também da qualidade das instituições.
Quando a política deixa de orientar o Estado e começa a ocupar o Estado
A política é essencial para definir prioridades.
Mas existe diferença entre definir prioridades e ocupar estruturas públicas como instrumento de preservação do poder.
Historicamente, o Brasil convive com práticas de clientelismo, patrimonialismo e intermediação política.
Em diferentes períodos, acesso a empregos, benefícios, contratos, obras ou serviços públicos esteve associado à capacidade de aproximação com autoridades ou grupos políticos.
Nesse ambiente, surge uma distorção perigosa.
O cidadão deixa de enxergar determinadas políticas como direito e passa a considerá-las favor.
O serviço público torna-se instrumento de barganha.
A nomeação torna-se recompensa.
O orçamento pode transformar-se em instrumento de negociação.
E projetos importantes passam a depender do alinhamento político de determinado governo.
O problema mais grave ocorre quando essa lógica deixa de ser excepcional e começa a fazer parte do funcionamento normal das instituições.
A dependência política produz descontinuidade
Uma das consequências mais visíveis da excessiva politização do Estado é a descontinuidade administrativa.
Governos mudam.
Secretários mudam.
Diretores mudam.
Prioridades são alteradas.
Programas criados por uma gestão podem ser abandonados pela seguinte simplesmente porque carregam a identidade política do governo anterior.
Em alguns casos, projetos tecnicamente adequados são interrompidos não por avaliação de resultados, mas por disputa política.
O prejuízo aparece em diferentes áreas.
Hospitais permanecem incompletos.
Obras são interrompidas.
Programas educacionais são reformulados constantemente.
Projetos de infraestrutura perdem continuidade.
Sistemas administrativos precisam começar novamente.
Equipes técnicas são desmontadas.
O Estado perde memória institucional.
E a população paga pela repetição permanente de ciclos administrativos.
O poder político e os cargos públicos
Governos precisam possuir alguma liberdade para formar equipes.
É razoável que ministros, secretários e determinadas funções estratégicas sejam ocupados por pessoas alinhadas ao projeto político legitimado pelas eleições.
O problema começa quando esse princípio se expande demasiadamente.
Quanto maior o número de posições dependentes exclusivamente de confiança política, maior o risco de que competência técnica e continuidade administrativa sejam colocadas em segundo plano.
Surge então uma pergunta essencial:
onde termina a legítima escolha política e começa a captura administrativa do Estado?
Essa fronteira precisa ser permanentemente discutida.
Porque o mesmo instrumento que pode garantir governabilidade também pode sustentar redes de dependência política.
Mas toda indicação política é ruim?
Não.
A resposta precisa ser equilibrada.
Pesquisas sobre administração pública demonstram que dirigentes politicamente indicados também podem facilitar comunicação entre burocracia e governo, acelerar decisões e ampliar a capacidade de execução de determinadas políticas.
Portanto, o problema não está na existência da confiança política.
O problema surge quando:
confiança substitui competência;
lealdade substitui avaliação;
proximidade substitui transparência;
e interesse político passa a prevalecer sobre interesse público.
Democracias institucionalmente sólidas procuram equilibrar esses elementos por meio de carreiras profissionais, concursos, transparência, controle externo, órgãos independentes e mecanismos de responsabilização.
E então chegamos ao Supremo Tribunal Federal
É nesse ponto que a discussão sobre poder, influência política e autonomia institucional alcança sua dimensão mais sensível.
O Supremo Tribunal Federal não administra diretamente hospitais, escolas ou programas sociais.
Entretanto, possui capacidade extraordinária de interferir nas regras dentro das quais Executivo, Legislativo, empresas, estados, municípios e cidadãos operam.
Cabe ao STF exercer a guarda da Constituição.
Suas decisões podem determinar limites para leis, políticas públicas e ações dos demais poderes.
Por isso, a composição do Supremo possui enorme relevância institucional.
E surge uma pergunta inevitável:
Quem deve escolher aqueles que terão a última palavra sobre a interpretação da Constituição?
Como funciona hoje
O modelo brasileiro está previsto no artigo 101 da Constituição Federal.
O STF possui onze ministros.
Os candidatos devem ter mais de 35 e menos de 70 anos, notável saber jurídico e reputação ilibada.
A indicação é realizada pelo Presidente da República.
Depois, o indicado passa por sabatina e precisa receber aprovação da maioria absoluta do Senado Federal.
Somente então ocorre a nomeação.
É fundamental deixar uma distinção clara:
a indicação presidencial não representa, por si só, interferência ilegal sobre o Judiciário.
Esse é o modelo constitucional brasileiro.
Também não existe fundamento para afirmar automaticamente que um ministro se torna subordinado ao presidente responsável por sua indicação.
O debate legítimo está em outro ponto:
o desenho institucional oferece contrapesos suficientes para proteger a percepção e a realidade da independência do Supremo?
2026 mudou o debate
Em 29 de abril de 2026, ocorreu um fato histórico.
Por 42 votos contrários, 34 favoráveis e uma abstenção, o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal.
Foi a primeira rejeição de uma indicação presidencial ao STF desde 1894.
O episódio possui importância muito maior do que o destino individual de um candidato.
Ele demonstrou que um mecanismo constitucional que durante décadas parecia funcionar quase como formalidade poderia novamente exercer efetivamente seu papel de controle.
O Senado mostrou que pode dizer não ao presidente.
Esse fato fortaleceu a percepção de funcionamento dos freios e contrapesos.
Ao mesmo tempo, colocou no centro da política brasileira a disputa sobre quem deve ocupar o Supremo.
O modelo entrou oficialmente em discussão
Em setembro de 2026, foi apresentada no Senado a PEC 17/2026, propondo mudanças no artigo 101 da Constituição.
Entre os pontos colocados em debate estão alterações nos requisitos para ministros e a formação de uma lista de candidatos antes da escolha presidencial.
A proposta integra um conjunto maior de iniciativas legislativas que, nos últimos anos, procuram discutir novas formas de composição do STF.
Outras propostas já defenderam:
mandatos determinados;
listas tríplices;
participação de diferentes instituições jurídicas;
restrições posteriores ao exercício de atividades políticas;
e alterações no processo de sabatina.
Isso demonstra algo importante.
A discussão não pertence exclusivamente ao atual governo.
Ela atravessa diferentes administrações, partidos e correntes ideológicas.
Trata-se de um debate institucional.
Existe Suprema Corte sem política?
Provavelmente não.
Cortes constitucionais decidem conflitos sobre Constituição, direitos fundamentais e limites do próprio Estado.
Suas decisões possuem inevitavelmente repercussões políticas, sociais e econômicas.
Por isso, diferentes democracias desenvolveram maneiras distintas de escolher seus magistrados constitucionais.
Algumas utilizam indicação presidencial.
Outras distribuem as nomeações entre diferentes poderes.
Em determinadas nações, parlamentos possuem participação decisiva.
Em outras, tribunais e entidades jurídicas participam da formação das listas.
O objetivo não é eliminar completamente a política.
Isso provavelmente seria impossível.
O objetivo é evitar concentração excessiva de influência.
O exemplo alemão
O modelo alemão oferece uma comparação interessante.
A Corte Constitucional Federal possui 16 integrantes.
Metade é escolhida por uma das casas legislativas e metade pela outra.
A eleição exige maioria qualificada de dois terços.
Isso obriga diferentes forças políticas a construir consensos.
Os magistrados cumprem mandato de 12 anos e não podem ser reconduzidos.
O modelo alemão não eliminou a política.
Ele fez algo diferente:
distribuiu a política.
Essa talvez seja uma das questões fundamentais para o debate brasileiro.
Quando nenhuma força consegue controlar sozinha o processo de escolha, aumenta-se a necessidade de negociação institucional.
O STF e a confiança institucional
O principal risco de um modelo excessivamente concentrado de indicação não está necessariamente na existência de interferência direta.
Está também na percepção pública de dependência.
Tribunais constitucionais necessitam não apenas ser independentes.
Precisam também ser percebidos como independentes.
Quando parcela significativa da sociedade começa a enxergar ministros como representantes do presidente ou do campo político responsável por suas nomeações, a legitimidade institucional pode ser prejudicada.
Esse problema existe independentemente de a percepção corresponder integralmente à realidade.
Confiança pública é um dos pilares das instituições democráticas.
Quando ela diminui, decisões jurídicas passam a ser interpretadas como decisões partidárias.
E o conflito jurídico transforma-se em conflito político permanente.
A confluência entre poder político e desenvolvimento
Não seria correto afirmar que o modelo de escolha do STF seja responsável diretamente pelos problemas de desenvolvimento brasileiro.
A relação é mais ampla.
Instituições determinam:
quem fiscaliza quem;
quem limita quem;
quanto poder cada autoridade possui;
quais políticas podem ser interrompidas;
como contratos são protegidos;
como conflitos são solucionados;
e quais garantias possuem cidadãos e empresas.
Quanto mais previsível e equilibrado é esse sistema, maior tende a ser a estabilidade institucional.
E estabilidade institucional influencia investimento, planejamento, inovação e continuidade das políticas públicas.
Quando regras são constantemente disputadas ou interpretadas exclusivamente como instrumentos políticos, o Estado torna-se menos previsível.
O verdadeiro problema: o poder que se retroalimenta
Existe um risco estrutural em qualquer democracia.
Um grupo conquista o governo.
O governo controla grande número de nomeações.
Essas nomeações aumentam sua capacidade administrativa e política.
Parlamentares disputam espaços dentro da máquina pública.
Governos locais dependem da articulação com o governo central.
Orçamento e cargos passam a integrar negociações políticas.
E algumas instituições responsáveis por controlar essas próprias autoridades também possuem processos de formação parcialmente ligados aos poderes políticos.
Separadamente, cada mecanismo pode ser constitucional e legítimo.
O risco aparece na interação entre eles.
Quando essas estruturas começam a se retroalimentar, o sistema pode desenvolver dependências capazes de atravessar diferentes governos.
O problema deixa de ser quem está no poder.
Passa a ser quanto poder o sistema permite que seja acumulado.
Como reformar sem criar outro tipo de captura?
Uma eventual reforma do STF precisa evitar um erro importante.
Retirar totalmente a escolha do presidente e entregá-la exclusivamente ao próprio Judiciário também não garantiria neutralidade.
Poderia simplesmente substituir uma influência política por uma influência corporativa.
Por isso, um modelo equilibrado poderia discutir mecanismos como:
1. Mandato longo e único
Um mandato determinado poderia garantir independência sem permitir permanências extremamente longas na Corte.
2. Critérios objetivos de experiência
Requisitos mais claros para carreira jurídica, experiência profissional e produção acadêmica poderiam reduzir subjetividade.
3. Participação de diferentes instituições
A formação de listas por diferentes segmentos poderia reduzir a concentração da escolha.
4. Aprovação parlamentar qualificada
Uma maioria maior poderia estimular a escolha de candidatos capazes de reunir apoio além de um único campo político.
5. Sabatina pública efetiva
O processo deveria analisar currículo, conflitos de interesse, patrimônio, trajetória jurídica e compreensão constitucional.
6. Regras claras de impedimento e quarentena
Mecanismos desse tipo podem contribuir para reduzir conflitos de interesse antes e depois do exercício do cargo.
O preço institucional da dependência política
As disputas políticas de Brasília parecem, muitas vezes, distantes da vida cotidiana.
Não estão.
Quando decisões administrativas dependem excessivamente de alinhamento político, o planejamento público perde estabilidade.
Quando equipes técnicas são substituídas integralmente a cada governo, conhecimento institucional desaparece.
Quando projetos são abandonados porque pertenciam à gestão anterior, recursos são desperdiçados.
Quando órgãos independentes perdem credibilidade, diminui a confiança da sociedade.
Quando decisões judiciais passam a ser interpretadas apenas pela identidade política de quem nomeou seus julgadores, a legitimidade do sistema se deteriora.
Tudo isso possui custo social.
Não necessariamente um custo imediatamente mensurável.
Mas um custo de oportunidade, eficiência, previsibilidade e confiança.
A pergunta essencial não é quem deve controlar o poder
O debate brasileiro costuma ser personalizado.
Quem indicou determinado ministro?
Quem nomeou determinado dirigente?
Qual partido controla determinado órgão?
Essa abordagem pode esconder o problema mais importante.
Instituições bem desenhadas devem funcionar independentemente de quem esteja temporariamente no governo.
Uma regra adequada não pode parecer boa apenas quando favorece o grupo político com o qual alguém concorda.
Ela precisa parecer aceitável também quando o adversário controla o governo.
Esse talvez seja o principal teste de qualidade institucional.
CONCLUSÃO | SAÚDE NO AR
A política é indispensável à democracia.
Mas existe uma fronteira que precisa permanecer clara.
O governo pertence temporariamente aos vencedores das eleições.
O Estado pertence à sociedade.
Quando essa diferença se enfraquece, cargos públicos, orçamento, instituições e estruturas administrativas podem gradualmente tornar-se instrumentos de manutenção do poder.
A crise em torno do modelo de indicação ao Supremo Tribunal Federal é apenas uma das manifestações mais visíveis dessa questão.
O Brasil precisa discutir de forma madura onde termina a legítima influência democrática dos governos e onde começa a necessária independência das instituições.
A rejeição histórica de uma indicação pelo Senado em 2026 e o surgimento de novas propostas de alteração constitucional demonstram que essa discussão deixou de ser apenas acadêmica.
Ela chegou definitivamente ao centro da política brasileira.
Mas qualquer reforma que simplesmente transfira poder de um grupo para outro repetirá o mesmo problema.
Não precisamos de um STF de esquerda.
Não precisamos de um STF de direita.
Precisamos de um Supremo suficientemente independente para contrariar ambos quando a Constituição assim exigir.
Da mesma forma, o desenvolvimento brasileiro não deveria depender permanentemente de quem governa, de quem indica, de quem conhece ou de qual grupo controla temporariamente determinada instituição.
Governos passam.
Partidos passam.
Presidentes passam.
Instituições permanecem.
E talvez seja exatamente essa a diferença entre um país que administra sucessivas crises e uma sociedade capaz de construir desenvolvimento contínuo, previsível e sustentável.
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