Portal Saúde no Ar

 

FeaturedMúltiplas Interações Complexas em CEID

Por Ezequiel Oliveira
31 de agosto de 2026

Vivemos cercados por acontecimentos que costumamos interpretar de maneira linear: uma causa produz um efeito e, a partir dele, chegamos a determinado resultado. Essa forma de pensar é útil, mas talvez seja insuficiente para compreender grande parte da realidade. Da organização de uma célula ao funcionamento de uma sociedade, do clima aos fenômenos físicos, encontramos sistemas formados por enorme quantidade de elementos que interagem continuamente.

A ciência chama nossa atenção para algo fundamental: o comportamento do todo nem sempre pode ser compreendido simplesmente observando cada uma de suas partes isoladamente. Essa é uma das ideias centrais do estudo dos chamados sistemas complexos. Neles, diferentes elementos estabelecem relações entre si e, dessas relações, podem surgir propriedades novas — fenômenos conhecidos como emergentes. A ciência da complexidade investiga justamente como interações locais podem produzir comportamentos coletivos inesperados. (Nature)

Imagine uma grande caixa transparente contendo água. Dez pessoas recebem dez cores diferentes de tinta e, simultaneamente, despejam pequenas quantidades dentro da caixa. Nos primeiros instantes ainda conseguimos identificar regiões vermelhas, azuis, amarelas ou verdes. Pouco depois, entretanto, as correntes da própria água fazem com que essas cores se encontrem, misturem-se e influenciem umas às outras. O resultado final não pertence mais exclusivamente a nenhuma das dez cores iniciais.

O exemplo é simples, mas oferece uma imagem poderosa para aquilo que podemos chamar de múltiplas interações complexas.

Cada elemento interfere no ambiente e, ao mesmo tempo, é modificado por ele.

Em sistemas suficientemente complexos, nem sempre existe apenas a sequência:

Causa → Efeito → Desfecho.

Podemos encontrar algo muito mais próximo de:

Causas → Efeitos → Interações → novos efeitos → novos desfechos → novas causas.

É nesse ponto que proponho utilizar um conceito que venho trabalhando no ambiente educacional: CEID — causas, efeitos, interações e desfechos.

O CEID pode funcionar como uma lente para observar acontecimentos. Em vez de perguntarmos apenas “qual foi a causa disso?”, ampliamos a investigação:

Quais causas estavam presentes? Que efeitos produziram? Com o que esses efeitos interagiram? E quais desfechos surgiram dessas múltiplas relações?

A matemática dos sistemas complexos transforma essa ideia em redes. Podemos imaginar pontos ligados por linhas. Cada ponto representa uma pessoa, partícula, organismo ou acontecimento; as linhas representam suas interações. Quando há poucas conexões, muitas vezes conseguimos prever razoavelmente o comportamento do sistema. Entretanto, à medida que milhares ou milhões de conexões passam a atuar simultaneamente — inclusive em interações envolvendo grupos inteiros e não apenas pares — a previsão se torna muito mais difícil. Estudos contemporâneos mostram que essas chamadas interações de ordem superior podem ser essenciais para compreendermos sistemas biológicos, sociais e físicos. (Nature)

Isso não significa que tudo seja aleatório.

Um sistema pode obedecer a regras perfeitamente definidas e ainda apresentar enorme dificuldade de previsão. É uma das lições trazidas pelo estudo do caos e da complexidade: determinismo não significa necessariamente previsibilidade. Pequenas diferenças nas condições iniciais podem, em certos sistemas, contribuir para trajetórias muito diferentes. (Nature)

Quando chegamos ao mundo quântico, encontramos outra dimensão dessa discussão. A mecânica quântica não descreve simplesmente partículas como pequenas bolas percorrendo trajetórias previamente determinadas. Estados quânticos são descritos em termos de amplitudes e probabilidades, e sistemas constituídos por muitas partes podem apresentar correlações, superposição, interferência e emaranhamento.

Pesquisadores já estudam inclusive a aproximação entre redes complexas e sistemas quânticos, investigando como estruturas de conexão, transporte de informação e emaranhamento podem ser analisadas dentro de uma mesma linguagem matemática. (Nature)

Também encontramos aqui dois conceitos especialmente interessantes: frequência e interferência.

Ondas podem se encontrar. Dependendo de suas fases, podem reforçar-se ou enfraquecer-se. Quando um sistema responde de maneira especialmente intensa a determinadas frequências, falamos em ressonância. Esses conceitos possuem significados físicos precisos e não devem ser usados indiscriminadamente como explicação científica para emoções, pensamentos ou acontecimentos humanos.

Mas eles podem servir como uma poderosa metáfora filosófica.

Nós também vivemos em redes de interação.

Uma palavra modifica alguém. Essa pessoa modifica outra. Uma decisão familiar interfere numa comunidade. Uma descoberta científica altera tecnologias, que modificam comportamentos, que transformam economias, que novamente influenciam indivíduos.

O desfecho de hoje pode tornar-se a causa de amanhã.

Essa talvez seja uma das grandes mensagens que o estudo da complexidade oferece à filosofia: existir é interagir.

No nível científico, essa afirmação significa reconhecer que inúmeros fenômenos da natureza dependem das relações entre seus componentes. No nível filosófico, permite-nos perguntar até que ponto nossas próprias escolhas participam de redes de consequências muito maiores do que conseguimos perceber.

E, no campo da espiritualidade, podemos avançar mais um passo — deixando claro que aqui entramos no território da interpretação, e não da demonstração experimental.

Se o Universo é constituído por matéria, energia, campos e estruturas que permanecem continuamente em interação, podemos contemplar a realidade não apenas como uma coleção de coisas isoladas, mas como uma extraordinária teia de relações. “Tudo está interligado” (Papa Francisco, na encíclica Laudato Si’)

Da escala subatômica às estrelas, das células às sociedades, somos participantes de processos que começaram muito antes de nós e que continuarão depois de nossa passagem.

Talvez o CEID possa nos ajudar justamente nisso: perceber que entre a causa e o desfecho existe um universo de interações.

E compreender essas interações pode transformar não apenas a maneira como fazemos ciência, mas também a maneira como percebemos nossa responsabilidade diante da vida.

Tudo interage. Todo efeito encontra outros efeitos. Todo desfecho pode tornar-se uma nova causa.

Talvez compreender essa rede seja um dos caminhos para compreendermos melhor a nós mesmos, a natureza e o próprio Cosmos.

Paz e Luz!

Referências para aprofundamento

BATTISTON, F. et al. The physics of higher-order interactions in complex systems. Nature Physics, 2021. (Nature)

BIAMONTE, J.; FACCIN, M.; DE DOMENICO, M. Complex networks from classical to quantum. Communications Physics, 2019. (Nature)

CRUTCHFIELD, J. P. Between order and chaos. Nature Physics, 2012. (Nature)

ORÚS, R. Tensor networks for complex quantum systems. Nature Reviews Physics, 2019. (Nature)

 

O jornalismo independente e imparcial com informações contextualizadas tem um lugar importante na construção de uma sociedade , saudável, próspera e sustentável. Ajude-nos na missão de difundir informações baseadas em evidências. Apoie e compartilhe