Fertilizantes nacionais: soberania agrícola, custo do agronegócio e preço dos alimentos na mesa do trabalhador
Atualizada em 25 de junho de 2026
Palavra-chave principal: produção nacional de fertilizantes
Meta descrição: Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. Entenda como essa dependência afeta o agronegócio, a inflação dos alimentos e a renda do trabalhador.
Brasil produz alimentos, mas depende do exterior para nutrir suas lavouras
O Brasil ocupa posição de destaque entre os maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo. Soja, milho, carnes, açúcar, café, algodão, frutas e outros produtos brasileiros abastecem o mercado interno e diversos países.
Entretanto, por trás dessa força produtiva existe uma vulnerabilidade estratégica: aproximadamente 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura brasileira ainda são importados.
Em 2025, o país importou o volume recorde de 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes, superando as 44,28 milhões de toneladas registradas em 2024. Esse crescimento revela a expansão da agricultura nacional, mas também mostra que o aumento da produção continua fortemente sustentado por insumos adquiridos no exterior.
Essa dependência deixa o Brasil exposto à cotação do dólar, aos custos internacionais de energia, ao preço do frete marítimo, a conflitos geopolíticos, sanções comerciais, restrições de exportação e interrupções logísticas.
Produzir alimentos em grande escala sem controlar parte relevante dos insumos necessários é como possuir uma grande indústria sem garantir o abastecimento de sua principal matéria-prima.
Por que os fertilizantes são tão importantes?
Os fertilizantes fornecem nutrientes essenciais ao desenvolvimento das plantas. Entre os principais estão:
- nitrogênio, ligado ao crescimento vegetativo;
- fósforo, relacionado ao desenvolvimento das raízes e à formação das plantas;
- potássio, importante para o equilíbrio hídrico, a resistência e a produtividade das culturas.
Em grande parte do território brasileiro, os solos apresentam características que exigem correção e manejo adequado da fertilidade. Por isso, o crescimento da produção agrícola nacional foi acompanhado pelo aumento do uso de fertilizantes, técnicas de correção do solo, sementes melhoradas, mecanização e tecnologias de precisão.
O Brasil responde por cerca de 8% do consumo mundial de fertilizantes. Soja, milho e cana-de-açúcar concentram mais de 73% do consumo nacional.
Essa concentração mostra a importância dos fertilizantes para o agronegócio exportador. Ao mesmo tempo, culturas fundamentais para o abastecimento interno, como arroz, feijão, frutas, hortaliças e alimentos destinados à pecuária, também dependem de uma oferta estável de nutrientes.
Como a dependência externa aumenta o custo do agronegócio
Na produção em grande escala, os fertilizantes representam uma parcela relevante dos custos operacionais. Em propriedades com milhares de hectares, pequenas variações no preço por tonelada podem gerar aumentos de milhões de reais no orçamento da safra.
Quando o fertilizante importado fica mais caro, o produtor enfrenta algumas alternativas:
- absorver o aumento e reduzir sua margem de lucro;
- diminuir a quantidade aplicada;
- substituir produtos ou alterar a formulação;
- reduzir a área plantada;
- trocar de cultura;
- adiar investimentos;
- buscar mais crédito para financiar o plantio.
Qualquer uma dessas decisões pode repercutir na produtividade e na quantidade de alimentos colocada no mercado.
A dependência externa também obriga o produtor a planejar suas compras com grande antecedência. Uma crise internacional, a valorização do dólar ou um problema em portos e rotas marítimas pode alterar rapidamente o custo de uma safra que ainda nem foi plantada.
No agronegócio de grande escala, isso afeta margens, investimentos, competitividade e capacidade de exportação. Para o pequeno e o médio agricultor, a situação pode ser ainda mais difícil, porque esses produtores geralmente compram volumes menores, possuem menor poder de negociação e encontram mais dificuldade para acessar crédito barato.
Do fertilizante ao supermercado: como o custo chega à mesa do trabalhador
O preço do fertilizante não aparece de forma visível na etiqueta do arroz, do feijão, da carne ou do leite. Entretanto, ele está incorporado ao custo de produção de diversos alimentos.
O caminho ocorre em etapas:
fertilizante mais caro → custo maior da lavoura → aumento no preço dos grãos e alimentos → elevação dos custos da indústria e da pecuária → pressão sobre atacado e varejo.
O milho e a soja, por exemplo, são componentes importantes das rações utilizadas na produção de frangos, suínos, ovos e leite. Quando o custo dessas culturas aumenta, a pressão pode alcançar também os produtos de origem animal.
Isso não significa que toda alta dos alimentos seja causada pelos fertilizantes. O preço final também é influenciado pelo clima, quantidade produzida, combustível, transporte, armazenamento, energia, impostos, crédito, perdas, margens comerciais e comportamento da demanda.
Ainda assim, a dependência de um insumo estratégico amplia a vulnerabilidade de toda a cadeia.
Em maio de 2026, o grupo Alimentação e bebidas respondeu por metade da inflação oficial do mês. A alimentação no domicílio subiu 1,65%, com aumentos expressivos em produtos como batata, tomate, cebola e carnes.
Na prévia de junho, a alta da alimentação no domicílio desacelerou, mas produtos importantes continuaram pressionados. Batata, tomate, feijão-carioca e cebola apresentaram novas elevações.
Essas oscilações pesam de maneira mais intensa sobre as famílias de menor renda, que comprometem uma parcela maior do orçamento com alimentação. Quando a comida sobe, o trabalhador reduz o consumo, troca produtos, abandona alimentos de maior qualidade nutricional ou corta despesas com saúde, transporte, educação e lazer.
A discussão sobre fertilizantes, portanto, não interessa apenas aos grandes produtores. Ela está diretamente relacionada à segurança alimentar, à inflação e ao poder de compra da população.
Produção nacional não significa isolamento comercial
Fortalecer a indústria brasileira de fertilizantes não significa interromper as importações ou buscar autossuficiência absoluta.
O Brasil continuará participando do comércio internacional e poderá importar de diferentes fornecedores. O objetivo estratégico deve ser reduzir a exposição excessiva, ampliar a produção interna, diversificar parceiros e criar alternativas tecnológicas adaptadas às condições brasileiras.
Uma política equilibrada deve combinar:
- produção nacional de fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos;
- diversificação dos países fornecedores;
- melhoria da infraestrutura de portos, ferrovias e armazenagem;
- incentivo aos fertilizantes organominerais;
- uso responsável de remineralizadores de solo;
- fortalecimento dos bioinsumos;
- reciclagem de nutrientes provenientes de resíduos;
- agricultura de precisão;
- análise de solo;
- pesquisa para aumentar a eficiência no uso dos nutrientes.
Produzir no Brasil não garante automaticamente fertilizante barato. O preço interno continuará dependendo do custo do gás natural, energia, mineração, transporte, escala industrial, tributos, financiamento, concorrência e eficiência das fábricas.
Entretanto, uma produção nacional maior pode reduzir riscos, melhorar a previsibilidade, gerar empregos, estimular a indústria química e mineral e diminuir a exposição do país a crises externas.
Retomada das fábricas recoloca o tema no centro da estratégia nacional
Nos últimos meses, o Brasil voltou a discutir de forma mais concreta a produção nacional de fertilizantes.
A retomada das operações na Bahia e os investimentos em unidades localizadas também em Sergipe, Paraná e Mato Grosso do Sul fazem parte de uma estratégia para ampliar a fabricação de fertilizantes nitrogenados.
A expectativa divulgada pelo governo é de que esse conjunto de fábricas possa atender cerca de 35% da demanda nacional por ureia nos próximos anos.
Em junho de 2026, também foi anunciada a retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III, a UFN-III, em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul.
O empreendimento prevê aproximadamente R$ 5 bilhões em investimentos, geração estimada de 8 mil postos de trabalho e inauguração projetada para 2029.
Essas iniciativas podem representar um avanço importante, mas precisam ser acompanhadas por planejamento de longo prazo, estabilidade regulatória, investimentos privados, infraestrutura e fiscalização.
A política nacional não pode depender apenas da abertura ou fechamento ocasional de fábricas. Fertilizantes devem ser tratados como parte da segurança alimentar, energética, industrial e econômica do país.
O Plano Nacional de Fertilizantes
O Plano Nacional de Fertilizantes foi estruturado para reduzir progressivamente a dependência externa até 2050.
Entre os principais desafios estão a retomada de plantas industriais, o desenvolvimento de novos projetos, a exploração responsável de matérias-primas, a inovação tecnológica e a ampliação de fertilizantes mais eficientes e sustentáveis.
O país também precisa estimular soluções adequadas aos solos e ao clima tropical. Tecnologias desenvolvidas para outras regiões do mundo nem sempre apresentam a mesma eficiência nas condições brasileiras.
Investir em pesquisa pode permitir que o produtor obtenha maior produtividade utilizando melhor cada unidade de nutriente aplicada.
Segurança alimentar também é segurança dos insumos
O debate sobre fertilizantes ultrapassa a fronteira das fazendas.
Quando um país depende excessivamente do exterior para produzir alimentos, sua segurança alimentar fica condicionada a decisões tomadas em outros mercados.
Uma guerra, uma sanção, uma crise energética ou uma interrupção logística pode produzir efeitos sobre:
- o planejamento da safra;
- o custo do crédito;
- a renda do produtor;
- a oferta de alimentos;
- as exportações;
- a inflação;
- o poder de compra das famílias.
O Brasil possui território, conhecimento científico, mercado consumidor, capacidade agrícola e base industrial para reduzir essa vulnerabilidade.
Um projeto que precisa unir o campo e a cidade
O aumento da produção nacional de fertilizantes não deve ser tratado apenas como política para beneficiar grandes produtores.
Ele pode favorecer toda a sociedade ao:
- aumentar a segurança de abastecimento;
- reduzir a exposição ao dólar e a crises internacionais;
- gerar empregos industriais;
- fortalecer polos regionais;
- estimular pesquisa e inovação;
- melhorar a previsibilidade dos custos agrícolas;
- proteger a produção de alimentos básicos;
- contribuir para conter pressões inflacionárias.
O grande produtor precisa de previsibilidade para planejar safras e investimentos. O agricultor familiar precisa de acesso a insumos em condições justas. O trabalhador urbano precisa encontrar comida de qualidade a preços compatíveis com sua renda.
Esses interesses não são opostos. Eles fazem parte da mesma cadeia.
Conclusão
Um país que se apresenta como potência agrícola precisa construir maior autonomia sobre os insumos que sustentam sua produção.
O recorde de 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes importados em 2025 demonstra a força do agronegócio, mas também evidencia uma dependência que não pode ser ignorada.
Fortalecer a produção nacional é uma decisão de soberania, competitividade e segurança alimentar.
Não existe garantia de que uma fábrica nacional reduzirá imediatamente o preço no supermercado. Contudo, ampliar a produção interna, diversificar fornecedores e investir em tecnologia pode reduzir riscos, estabilizar custos e fortalecer toda a cadeia produtiva.
No final, o tema não diz respeito apenas às grandes lavouras ou às exportações. Ele chega à feira, ao mercado, ao prato das famílias e ao orçamento do trabalhador brasileiro.
Fontes institucionais consultadas: Ministério da Agricultura e Pecuária, Companhia Nacional de Abastecimento, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e Casa Civil da Presidência da República.
Tags: fertilizantes, produção nacional de fertilizantes, agronegócio, preço dos alimentos, inflação, segurança alimentar, agricultura brasileira, trabalhador, produção agrícola, ureia, Petrobras, soberania nacional.
Base factual da atualização
O Brasil importa atualmente cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. O país responde por aproximadamente 8% do consumo mundial, enquanto soja, milho e cana concentram mais de 73% da demanda nacional. (Serviços e Informações do Brasil)
Em 2025, as importações brasileiras atingiram o recorde de 45,5 milhões de toneladas, alta de 2,68% sobre 2024. (Serviços e Informações do Brasil)
Estudos do Ipea mostram que a dependência externa transmite oscilações internacionais aos custos de produção, podendo alterar o planejamento, a área cultivada e a quantidade ofertada.
Em maio de 2026, Alimentação e bebidas respondeu por metade do IPCA mensal, e a alimentação no domicílio subiu 1,65%. Na prévia de junho, desacelerou para 0,87%, embora vários alimentos continuassem em forte alta. (Agência de Notícias – IBGE)
A retomada das fábricas na Bahia, Sergipe, Paraná e Mato Grosso do Sul tem projeção governamental de atender cerca de 35% da demanda brasileira por ureia. A UFN-III, retomada em junho de 2026, prevê R$ 5 bilhões em investimentos, aproximadamente 8 mil empregos e inauguração em 2029. (Serviços e Informações do Brasil)


















