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A saúde suplementar precisa de menos confronto e mais diálogo 

Por Ronaldo Sampaio, presidente Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI) 

 Toda cadeia produtiva saudável depende de confiança. Quando essa confiança se rompe, surgem custos invisíveis, insegurança jurídica, perda de eficiência e desperdício de recursos. Na saúde suplementar brasileira, infelizmente, convivemos há anos com um cenário em que relações comerciais muitas vezes são substituídas por relações de conflito. 

 Retenções de faturamento, glosas sem justificativa técnica consistente, atrasos recorrentes nos pagamentos e crescente inadimplência deixaram de ser episódios isolados para se transformar em parte da rotina das empresas que fornecem produtos para saúde. O problema deixou de ser operacional. Tornou-se estrutural. 

É justamente por isso que considero tão importante a criação de espaços de diálogo entre operadoras, hospitais, fornecedores, indústria, entidades representativas e órgãos reguladores. Nenhum segmento conseguirá, sozinho, resolver um problema que afeta toda a cadeia assistencial. 

 A ABRAIDI acompanha essa realidade há quase uma década. Desde 2017 realizamos um levantamento anual que mede as principais distorções existentes nas relações comerciais do setor. Os números mais recentes mostram que o problema atingiu um patamar sem precedentes. A pesquisa identificou R$ 5,787 bilhões em pagamentos pendentes ou não realizados. É o maior valor da série histórica. Desse total, R$ 2,077 bilhões correspondem à retenção de faturamento, situação em que uma cirurgia previamente autorizada é realizada, o produto é entregue, mas o fornecedor sequer recebe autorização para emitir a nota fiscal e iniciar o processo de cobrança. Em média, as empresas aguardam 170 dias apenas para poder faturar. Há ainda R$ 167,17 milhões em glosas consideradas injustificadas, nas quais pagamentos são contestados mesmo após autorizações previamente concedidas, além de R$ 3,543 bilhões em inadimplência. 

 Esses números não representam apenas dificuldades financeiras para empresas. Eles revelam um modelo de relacionamento que perdeu equilíbrio. Quando fornecedores deixam de receber pelo que efetivamente entregaram, precisam buscar crédito para manter suas operações. Hoje, 64% das empresas associadas recorreram a empréstimos bancários para cumprir suas obrigações financeiras, enquanto cerca de 36% do faturamento encontra-se comprometido pelas distorções existentes. São recursos que deixam de ser investidos em inovação, treinamento, qualificação profissional, ampliação de estoques e incorporação de novas tecnologias que poderiam beneficiar diretamente pacientes e profissionais de saúde. 

 Ao mesmo tempo, o mercado passou por uma transformação significativa. A concentração de compradores aumentou seu poder de negociação, enquanto fornecedores convivem com margens cada vez menores, prazos mais extensos e crescente transferência de responsabilidades financeiras, tributárias e assistenciais. 

Nenhum ambiente econômico consegue prosperar indefinidamente sob condições tão assimétricas. 

 A saúde suplementar enfrenta desafios complexos. Operadoras lidam com inflação médica crescente, envelhecimento populacional e aumento da demanda por procedimentos. Hospitais também enfrentam pressões financeiras importantes. Fabricantes convivem com oscilações cambiais e custos globais. Distribuidores precisam garantir disponibilidade permanente de produtos essenciais. Justamente por isso, a saída não está no agravamento dos conflitos, mas na construção de mecanismos permanentes de diálogo. 

 É nesse contexto que iniciativas como o Instituto Consenso ganham importância. Seu maior mérito talvez não seja produzir respostas imediatas, mas criar um ambiente onde diferentes perspectivas possam ser ouvidas, compreendidas e transformadas em soluções compartilhadas. A ABRAIDI acredita profundamente nesse caminho. Nosso papel não é apenas representar empresas associadas, mas produzir informações confiáveis, levar dados concretos aos órgãos reguladores, incentivar boas práticas, estimular maior previsibilidade nas relações comerciais e contribuir para que o setor evolua de forma sustentável. Uma cadeia de suprimentos sólida interessa a todos: hospitais, operadoras, profissionais de saúde, fabricantes, distribuidores e gestores públicos. 

 Frequentemente discutimos quem compra, quem vende, quem paga e quem recebe. No entanto, existe uma verdade simples que precisa permanecer no centro de qualquer debate: a verdadeira fonte pagadora da saúde suplementar brasileira é o paciente. É o cidadão que paga mensalmente seu plano de saúde. É a empresa que oferece esse benefício aos seus colaboradores. É a família que destina parte significativa de sua renda para ter acesso à assistência privada. É esse consumidor quem financia toda a cadeia. Fortalecer o diálogo, construir consensos e promover relações mais transparentes não é apenas uma agenda empresarial. É um compromisso com a sustentabilidade da saúde suplementar e, principalmente, com as milhões de pessoas que tornam esse sistema possível todos os dias. 

 

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