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Golpe do falso advogado – Usam dados reais de processos para enganar vítimas

Golpistas usam WhatsApp, dados reais de processos e até identidade de advogados para convencer vítimas de que ganharam uma ação judicial. Fraude já mobiliza OAB, CNJ e polícias em diferentes estados.

“Seu processo foi ganho. O dinheiro está disponível para receber.”

A mensagem chega pelo WhatsApp e parece verdadeira. O criminoso sabe o nome da vítima, conhece o número do processo, informa detalhes da ação judicial e, muitas vezes, utiliza a fotografia e o nome do verdadeiro advogado.

A partir daí, começa uma das fraudes que mais preocupam atualmente a advocacia e o Poder Judiciário brasileiro: o golpe do falso advogado.

O que torna o crime particularmente perigoso é justamente o fato de que o processo existe de verdade.

O criminoso não precisa inventar uma ação judicial. Ele utiliza informações reais para construir uma história falsa.

Vítima perdeu R$ 150 mil

A dimensão do problema ficou evidente em agosto de 2026, quando uma operação policial desarticulou uma organização criminosa suspeita de aplicar o golpe contra idosos.

A Operação Juris Fictio, realizada pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul com apoio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, cumpriu 48 medidas cautelares no Ceará, incluindo 16 mandados de prisão preventiva.

Uma das vítimas identificadas, uma mulher de 68 anos, sofreu prejuízo de R$ 150 mil.

O caso mostra que o golpe deixou de ser uma fraude isolada praticada por indivíduos e pode envolver organizações estruturadas para localizar vítimas, obter informações e movimentar grandes quantias de dinheiro.

Como funciona o golpe

O roteiro pode variar, mas geralmente segue uma sequência:

1. O criminoso encontra um processo real.

Ele identifica pessoas que possuem ações judiciais em andamento ou processos nos quais existe possibilidade de recebimento de dinheiro.

2. Reúne informações sobre a ação.

Número do processo, nomes das partes, tribunal, movimentações e outros dados podem ser utilizados para tornar a abordagem convincente.

O CNJ confirma que os criminosos utilizam dados reais de processos para entrar em contato com as vítimas e se passar por advogados.

3. Entra em contato pelo WhatsApp.

O golpista pode utilizar um número desconhecido, mas colocar no perfil a fotografia e o nome do verdadeiro advogado.

Em alguns casos, também pode se apresentar como funcionário do escritório ou até como representante de alguma instituição ligada à Justiça.

4. Anuncia uma suposta vitória.

A vítima recebe a informação de que ganhou a ação e que existe dinheiro para receber.

5. Surge a exigência.

É nesse momento que aparece a fraude.

O criminoso pode pedir dinheiro para supostas custas, impostos, honorários, taxas ou despesas necessárias para liberar o pagamento.

Também pode solicitar dados bancários para, supostamente, depositar o dinheiro.

6. Depois que a vítima paga, o dinheiro desaparece.

Em muitos casos, o criminoso continua inventando novas exigências até perceber que não conseguirá mais obter dinheiro.

O detalhe que engana a vítima

Imagine receber uma mensagem dizendo:

“Boa tarde. Estou entrando em contato sobre seu processo. Houve uma decisão favorável e a senhora tem R$ 80 mil para receber.”

A vítima pode consultar o processo e descobrir que realmente existe uma ação judicial.

O golpista então fornece o número do processo.

A pessoa confere.

Está correto.

Ele informa o nome do advogado.

Também está correto.

Fala sobre uma decisão que realmente consta no processo.

Mais uma vez, parece verdadeiro.

É justamente essa combinação que torna o golpe tão perigoso.

Informações verdadeiras são utilizadas para sustentar uma mentira.

Ter informações sobre o processo não significa que a pessoa seja seu advogado

Esse é um dos principais alertas que o cidadão precisa guardar.

O criminoso pode conhecer o seu processo e ainda assim não ter qualquer relação com ele.

O CNJ alerta que os golpistas utilizam informações processuais reais para dar credibilidade à abordagem.

Portanto, saber o número da ação, o nome das partes ou detalhes do processo não comprova a identidade de quem está enviando a mensagem.

WhatsApp aumenta a sensação de segurança

O criminoso pode copiar a fotografia do advogado verdadeiro e criar um perfil utilizando seu nome.

Para a vítima, a imagem conhecida transmite confiança.

Mas fotografia, nome e logotipo de escritório podem ser copiados.

Por isso, uma das recomendações mais importantes é não confirmar a identidade do suposto advogado pelo próprio número que iniciou a conversa.

A pessoa deve procurar o profissional utilizando um telefone ou outro canal que já conhecia antes da abordagem.

“Preciso dos seus dados bancários”

Outro momento crítico ocorre quando o criminoso pede informações bancárias.

A justificativa pode ser:

“Precisamos da sua conta para fazer o depósito judicial.”

A solicitação pode parecer normal porque existe realmente um processo.

Mas a vítima deve interromper a conversa e confirmar diretamente com o advogado.

Também é importante desconfiar de pedidos de senhas, códigos de autenticação ou outras informações que possam permitir acesso às contas.

O problema já gerou milhares de denúncias

A OAB de São Paulo informou, em fevereiro de 2026, que havia contabilizado 4.388 denúncias relacionadas ao golpe do falso advogado em pouco mais de um ano e meio.

Segundo a entidade, os criminosos utilizam dados reais de processos, prometem a liberação de valores e exigem depósitos antecipados.

Em maio, uma operação conjunta da OAB-SP com a Polícia Civil de São Paulo identificou uma organização criminosa que teria movimentado aproximadamente R$ 10 milhões em seis meses com esse tipo de fraude.

O problema também chegou ao Conselho Nacional de Justiça.

A Ouvidoria do CNJ registrou 88 denúncias relacionadas ao golpe desde maio de 2025, sendo 14 delas somente em 2026 até março.

Nem o número do telefone deve ser considerado prova

Uma preocupação adicional é que criminosos podem utilizar mecanismos capazes de alterar a identificação apresentada em chamadas telefônicas.

Isso significa que até mesmo quando aparece na tela um número conhecido, a identidade do interlocutor precisa ser confirmada por outro meio.

A regra é simples:

não confie apenas no número que aparece na tela.

Como se proteger

Diante de uma mensagem relacionada a um processo judicial:

NÃO faça imediatamente:

  • pagamentos por Pix;
  • transferências bancárias;
  • depósitos para supostas taxas de liberação;
  • fornecimento de senhas;
  • envio de códigos recebidos por SMS ou aplicativos;
  • compartilhamento de dados bancários sem confirmação;
  • clique em links enviados pelo desconhecido.

FAÇA:

  • interrompa a negociação;
  • entre em contato com seu advogado pelo número que você já possuía;
  • telefone para o escritório utilizando um contato oficial conhecido;
  • confirme se realmente houve decisão favorável;
  • consulte o processo diretamente no portal oficial do tribunal;
  • guarde todas as mensagens, áudios, documentos e comprovantes;
  • faça capturas de tela;
  • se houver prejuízo, comunique imediatamente o banco;
  • registre um Boletim de Ocorrência.

O CNJ também recomenda desconfiança diante de pedidos de dinheiro relacionados a processos judiciais.

O que fazer se já caiu no golpe?

Se o dinheiro já foi transferido, a orientação é agir imediatamente.

A vítima deve entrar em contato com o banco e informar que foi vítima de fraude.

É importante fornecer os comprovantes das transferências e todas as informações disponíveis sobre a conta que recebeu o dinheiro.

Também deve registrar o Boletim de Ocorrência e preservar as conversas com os criminosos.

Não apague o WhatsApp, as mensagens ou os arquivos recebidos.

Essas informações podem ser importantes para a investigação policial.

A Justiça também está reagindo

O avanço do golpe levou o CNJ e a OAB a discutir medidas de segurança para dificultar o acesso indevido a informações processuais.

Em março de 2026, o CNJ aprovou nota técnica favorável a um projeto de lei destinado a combater especificamente o golpe do falso advogado.

A Câmara dos Deputados também aprovou, em março, o Projeto de Lei 4.709/2025, que trata especificamente da fraude e prevê novas medidas envolvendo tribunais, instituições financeiras, aplicativos de mensagens e empresas de telecomunicações.

O golpe pode atingir qualquer pessoa

Não existe um perfil único de vítima.

A pessoa pode ser jovem ou idosa, ter conhecimento de internet ou pouca familiaridade com tecnologia.

O criminoso aposta principalmente em uma coisa:

a confiança provocada por informações verdadeiras.

É por isso que o golpe consegue ser tão convincente.

A vítima não recebe uma mensagem sobre um processo que nunca existiu.

Ela recebe uma mensagem sobre o seu próprio processo.

O número está correto.

O nome está correto.

O advogado existe.

A ação existe.

Mas quem está do outro lado do WhatsApp pode ser um criminoso.

A regra de ouro

Se alguém entrar em contato dizendo que você ganhou uma ação judicial e precisa pagar alguma quantia para receber o dinheiro:

PARE. NÃO PAGUE. NÃO FORNEÇA DADOS.

Procure seu advogado por um canal que você já conhecia e confirme pessoalmente a informação.

Porque, no golpe do falso advogado, a informação verdadeira é apenas a isca para fazer a vítima acreditar na mentira.

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