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Eleições 2026: a batalha pelo controle das narrativas nas redes sociais e os riscos para a democracia brasileira

Ilustração gerada por IA de investigação jornalística sobre anúncios eleitorais em plataformas digitais

Subtítulo: Redes de inteligência artificial, notícias falsas, publicidade financiada no exterior e denúncias contra plataformas digitais colocam a integridade da informação no centro da disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Saúde no Ar | Política, Democracia e Sociedade | 18 de outubro de 2026 | Tempo estimado de leitura: 10 minutos

Resumo

A uma semana do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, o Brasil enfrenta uma disputa que ultrapassa os palanques, os debates televisivos e a propaganda eleitoral tradicional. Nas redes sociais, algoritmos, inteligência artificial, influenciadores e campanhas de publicidade moldam a circulação de informações que chegam aos eleitores.

Investigações jornalísticas e pesquisas acadêmicas identificaram redes coordenadas de conteúdos políticos, anúncios eleitorais com origem no exterior, notícias falsas produzidas com inteligência artificial e restrições a contas de usuários e campanhas.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou medidas preventivas para garantir tratamento igualitário aos presidenciáveis. Paralelamente, o Ministério Público Federal (MPF) abriu procedimento para investigar práticas de moderação de conteúdo. A questão central não é apenas quem vencerá a eleição, mas se o eleitor brasileiro terá acesso a informações plurais, confiáveis e transparentes para decidir livremente seu voto.

O que importa em 30 segundos

1. Das urnas às telas: uma nova dimensão do poder político

No dia 4 de outubro, os brasileiros levaram a disputa presidencial ao segundo turno. Segundo o TSE, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva somou 53.876.617 votos, na apuração praticamente concluída divulgada em 5 de outubro.

A diferença relativamente pequena entre os dois candidatos aumenta a importância da disputa pelos eleitores indecisos e pela mobilização dos que poderiam deixar de votar.

Ao contrário da propaganda televisiva, os sistemas digitais selecionam e organizam informações conforme inúmeros sinais de comportamento, interação e interesse. Duas pessoas que utilizam a mesma rede social podem receber conjuntos profundamente diferentes de conteúdos políticos.

Essa personalização pode facilitar o acesso à informação, mas também amplia os riscos de concentração de visibilidade, manipulação e formação de ambientes nos quais opiniões contrárias quase não aparecem. A influência da tecnologia sobre a política não se limita ao conteúdo publicado: envolve a maneira pela qual ele é distribuído.

2. As cinco fases da disputa digital: evidências e consequências

A análise das publicações, pesquisas e decisões judiciais permite identificar cinco dimensões da batalha informacional. Elas não representam necessariamente etapas de uma única operação coordenada, mas mecanismos que se sobrepõem durante a campanha.

Primeira fase — A construção das narrativas políticas

As campanhas procuram associar suas candidaturas a valores, problemas e expectativas capazes de mobilizar o eleitorado. O discurso eleitoral deixa de abordar apenas propostas administrativas e passa a explorar sentimentos como esperança, insegurança, indignação e desconfiança.

Um estudo de popularidade digital da Quaest, noticiado pela Folha de S.Paulo em 18 de outubro, identificou mudanças na força relativa das duas candidaturas após o primeiro turno. Entre 4 e 15 de outubro, Lula passou de 70,7 para 82,6 pontos no Índice de Popularidade Digital, enquanto Flávio Bolsonaro passou de 80 para 76,4 pontos. O indicador considera variáveis relacionadas à presença e mobilização digital: não deve ser confundido com intenção de voto ou previsão de resultado eleitoral.

Consequência: uma campanha pode ganhar influência no debate público sem que esse crescimento corresponda, necessariamente, a uma transferência proporcional de votos.

Segunda fase — A amplificação artificial de conteúdos

Uma investigação do Aos Fatos, de 23 de setembro, trouxe evidências sobre redes de conteúdo produzido com inteligência artificial. O levantamento do Instituto Democracia em Xeque identificou 255 perfis que publicaram ou participaram conjuntamente de 1.204 publicações entre 15 de agosto e 15 de setembro. Esses conteúdos acumularam 58 milhões de visualizações e aproximadamente 5 milhões de curtidas e comentários.

O material estava associado principalmente a pautas bolsonaristas, ataques a Lula e ao STF e promoção de figuras da direita. A pesquisa descreveu mecanismos de publicação colaborativa pelos quais diferentes contas compartilham audiências para ampliar a distribuição.

Isso não demonstra que todos os seguidores dessas páginas sejam falsos, nem que os candidatos tenham comandado a operação. Documenta, porém, uma estrutura de amplificação capaz de alcançar muito mais pessoas do que perfis isolados.

Consequência: a repetição sistemática pode criar a impressão de que determinada opinião representa consenso social, mesmo quando sua visibilidade foi artificialmente ampliada.

Terceira fase — Notícias falsas, imagens manipuladas e inteligência artificial

Ferramentas de inteligência artificial já permitem fabricar falas, imagens, vozes e situações aparentemente reais. O Projeto Comprova documentou exemplos envolvendo ambos os candidatos.

Caso 1 — Flávio Bolsonaro: vídeos sintéticos atribuíram ao candidato uma suposta promessa de salário mínimo de R$ 3 mil. A checagem não encontrou essa proposta no programa de governo examinado. Cinco vídeos de um dos perfis haviam acumulado cerca de 696,4 mil visualizações.

Caso 2 — Lula: outras publicações com inteligência artificial atribuíram falsamente a Lula a mesma promessa específica de salário mínimo de R$ 3 mil. O conteúdo não correspondia ao plano de governo consultado pelo Comprova.

Caso 3 — manifestações: uma apuração do Comprova, de 16 de outubro, examinou publicações que distorciam registros de atos favoráveis a Lula, com imagens retiradas de contexto e alegações enganosas sobre inteligência artificial.

Consequência: conteúdos falsos podem modificar a percepção do eleitor sobre promessas e credibilidade dos candidatos. Mesmo depois de desmentida, uma publicação enganosa pode continuar circulando por mensagens privadas.

Quarta fase — Publicidade política e financiamento internacional

Um estudo do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, identificou 1.613 anúncios político-eleitorais impulsionados nas plataformas da Meta a partir do exterior por atores sem autorização para contratar propaganda eleitoral no Brasil.

As páginas responsáveis estavam localizadas principalmente nos Estados Unidos, mas também em países como Itália, México, Bangladesh e Colômbia. Os anúncios circularam entre julho e setembro e foram pagos em moedas estrangeiras, predominantemente em dólar. O levantamento registra estimativa de cerca de 171,1 milhões de impressões — exibições dos anúncios, não pessoas distintas — e gastos aproximados de R$ 2 milhões.

A identificação de páginas e pagamentos associados a outros países não constitui, isoladamente, prova da participação de qualquer governo estrangeiro. Para demonstrar uma operação estatal, seria necessário estabelecer vínculos verificáveis entre financiadores, operadores e autoridades públicas.

Consequência: a utilização de anunciantes não autorizados e recursos externos pode comprometer a transparência eleitoral, dificultar a identificação dos responsáveis e ampliar a influência de agentes externos ao processo formal de financiamento político.

Quinta fase — Moderação, algoritmos e controle da visibilidade

A controvérsia mais recente envolve a Meta, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp. A campanha de Lula denunciou restrições no impulsionamento de conteúdos e diferenças no comportamento de ferramentas de inteligência artificial; a campanha de Flávio Bolsonaro também apresentou reclamações relacionadas a publicidade negativa.

Em comunicado de 16 de outubro, a própria Meta reconheceu os seguintes episódios:

Mensagens internas divulgadas pela imprensa apontaram prejuízos operacionais a contas da campanha de Lula. A Meta nega ter favorecido qualquer candidatura e afirma que os problemas decorreram de falhas técnicas, sistemas antifraude e mecanismos de adequação à legislação.

Consequência: erros técnicos e aplicações desiguais de regras, independentemente da causa, podem afetar a comunicação das campanhas. A extensão dos efeitos e eventual responsabilidade requerem verificação e contraditório.

3. O que a Justiça Eleitoral efetivamente decidiu?

O TSE determinou providências para assegurar tratamento igualitário às campanhas nas plataformas da Meta, com previsão de multa pelo descumprimento. A medida tem natureza preventiva e não deve ser confundida com conclusão definitiva sobre manipulação deliberada do resultado eleitoral.

O MPF anunciou em 14 de outubro a abertura de procedimento administrativo para apurar a regularidade e a legalidade de práticas de moderação adotadas pela Meta e pelo X. A apuração teve origem em representação das organizações Artigo 19, Conectas Direitos Humanos, Sleeping Giants Brasil e CTRL+Z, que reuniram mais de mil relatos de bloqueios, remoções e suspensões.

Também foram relatados problemas envolvendo contas de cidadãos, comunicadores, entidades sociais e campanhas. Reclamações registradas em diferentes serviços e períodos não equivalem automaticamente a ocorrências comprovadas de censura política, razão pela qual cada caso exige apuração específica.

As investigações e controvérsias judiciais permanecem em andamento, e é necessário acompanhar eventuais novas decisões e manifestações das partes.

4. O risco de uma eleição influenciada por estruturas pouco transparentes

A participação das redes sociais no processo eleitoral é legítima. O problema começa quando a circulação de informações depende de mecanismos pouco transparentes, publicidade irregular, falsificações e estruturas de amplificação disfarçadas de manifestações espontâneas.

Liberdade de expressão: bloqueios injustificados podem impedir cidadãos, jornalistas e campanhas de participar do debate público.

Igualdade de oportunidades: critérios diferentes de distribuição ou impulsionamento podem prejudicar a competição entre candidaturas.

Direito à informação: vídeos falsos e publicações descontextualizadas podem levar eleitores a decidir com base em situações que não ocorreram.

Soberania nacional: publicidade política irregular originada no exterior levanta questões sobre a influência de financiadores que não deveriam participar da disputa brasileira.

Confiança institucional: acusações infundadas de fraude ou manipulação das urnas podem enfraquecer a confiança coletiva sem provas. O MP Eleitoral informou que houve determinação de retirada de publicações falsas sobre o sistema de apuração.

5. Quem deve responder pelas irregularidades?

A defesa da integridade eleitoral exige responsabilização proporcional e baseada em provas. Plataformas precisam prestar informações sobre seus sistemas, explicar bloqueios, identificar anunciantes e oferecer mecanismos eficazes de recurso. Os responsáveis por publicidade eleitoral devem cumprir exigências de identificação, autorização e prestação de contas. Campanhas e grupos políticos precisam responder pelas operações sob sua responsabilidade quando houver comprovação de infrações.

As autoridades, por sua vez, precisam investigar preservando a liberdade de expressão, o direito de defesa e a igualdade de tratamento. A Resolução TSE nº 23.755/2026 estabelece regras para inteligência artificial na propaganda eleitoral, inclusive identificação de determinados conteúdos sintéticos e restrições específicas em períodos próximos à votação.

Enfrentar a desinformação não significa remover indiscriminadamente opiniões políticas legítimas. É essencial distinguir crítica, sátira e debate público de conteúdos fraudulentos ou ilícitos.

6. Como proteger o eleitor e a democracia?

O Saúde no Ar considera essenciais medidas que conciliem liberdade, transparência e responsabilidade. É necessário ampliar a fiscalização de anúncios políticos, explicitar quem paga, onde conteúdos são veiculados e qual público é alcançado. Também se deve exigir maior clareza sobre suspensões e distribuição de conteúdo, fortalecer investigações de redes coordenadas sem presumir a responsabilidade direta dos candidatos beneficiados e promover educação midiática para verificação de fatos e fontes primárias.

Por último, o debate eleitoral precisa abordar de forma concreta os programas de governo, o financiamento político, a saúde, a educação, a segurança pública e as condições de vida dos brasileiros. O voto livre exige informação confiável.

7. Editorial Saúde no Ar: a democracia não pode ser refém dos algoritmos

A democracia representativa pressupõe que cidadãos possam comparar projetos, avaliar governantes e escolher seus representantes sem coerção ou manipulação fraudulenta. Quando tecnologias digitais interferem na visibilidade de ideias, a transparência sobre seus critérios passa a integrar o interesse público.

As evidências disponíveis em outubro de 2026 demonstram falhas documentadas, redes de amplificação de conteúdo, publicações falsas e publicidade apontada como irregular por pesquisadores. Contudo, a existência desses episódios não comprova, por si só, uma operação estatal estrangeira coordenada para determinar o resultado eleitoral.

A investigação precisa avançar para distinguir erros técnicos, violações legais, negligência e ações eventualmente coordenadas. O Brasil precisa preservar simultaneamente a soberania popular, a liberdade de expressão e a integridade da informação.

A democracia não se fortalece quando uma narrativa elimina a outra, mas quando os fatos podem ser examinados publicamente e todas as propostas são submetidas ao julgamento consciente da sociedade.

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Perguntas frequentes — Eleições 2026

1. Existem evidências de interferência da Meta nas eleições brasileiras de 2026?

Há fatos documentados que indicam restrições, falhas e possível tratamento desigual em algumas funcionalidades da Meta durante o processo eleitoral. Esses fatos, por si só, não comprovam uma operação coordenada de interferência eleitoral.

A empresa reconheceu ter desativado indevidamente uma conta de anúncios da campanha de Lula em 23 de setembro e relatou problemas em ferramentas de publicidade e inteligência artificial. Testes independentes também identificaram diferenças no funcionamento da Meta AI em solicitações relacionadas aos candidatos.

Documentos internos divulgados pela imprensa registraram restrições à campanha de Lula. Uma pesquisa da UFRJ identificou publicidade eleitoral irregular nas plataformas da empresa.

Após as denúncias, o Tribunal Superior Eleitoral determinou que a Meta assegurasse tratamento igualitário às candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro. A decisão foi confirmada por unanimidade. O Ministério Público Federal também abriu procedimentos para apurar restrições a perfis e publicações.

Os fatos descritos são documentados. A extensão dos prejuízos, a existência de eventual favorecimento político sistemático e as responsabilidades legais permanecem sob investigação.

A Meta atribui os episódios a problemas técnicos, mecanismos antifraude e procedimentos de adequação às regras eleitorais. A empresa nega favorecimento político.

2. Foram identificadas 171 milhões de impressões de propaganda eleitoral? Quantas pessoas foram efetivamente atingidas?

Sim. O NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, identificou cerca de 171,1 milhões de impressões associadas a 1.613 anúncios político-eleitorais considerados irregulares, veiculados entre julho e setembro de 2026.

O levantamento registrou 187 anunciantes e estimou gastos de aproximadamente R$ 2 milhões.

“Impressões” correspondem ao número de exibições dos anúncios, não ao número de pessoas alcançadas. Um mesmo usuário pode visualizar o mesmo anúncio várias vezes. Portanto, 171,1 milhões de impressões não equivalem a 171,1 milhões de indivíduos.

Os dados disponíveis não informam quantas pessoas foram alcançadas, quantas vezes cada pessoa visualizou os anúncios ou se as mensagens alteraram preferências políticas.

O estudo documenta a circulação expressiva de publicidade considerada irregular. Ele não permite concluir qual foi o efeito dessa publicidade sobre o comportamento dos eleitores ou sobre o resultado eleitoral.

3. Quais são as evidências de uma possível interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026?

Há fatos documentados que indicam pressão política e econômica dos Estados Unidos sobre o Brasil, além de publicidade eleitoral com origem declarada no exterior. Esses fatos não comprovam, por si só, uma operação estatal coordenada para interferir nas eleições.

Entre os principais elementos estão:

Pressões econômicas e diplomáticas: o governo de Donald Trump impôs tarifas comerciais e sanções contra autoridades brasileiras. Parlamentares norte-americanos criticaram essas medidas por seu possível efeito sobre decisões institucionais no Brasil. O efeito concreto dessas medidas sobre o processo eleitoral é uma questão interpretativa e permanece em avaliação.

Declarações do presidente Trump: Trump afirmou acompanhar de perto as eleições brasileiras e recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca. Esses fatos documentam interesse político, mas não comprovam uma operação eleitoral clandestina.

Questionamentos no Congresso norte-americano: em 29 de setembro, os senadores Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch enviaram uma carta ao secretário de Estado Marco Rubio. Eles expressaram preocupação com as ações do governo Trump e cobraram compromisso com o reconhecimento do resultado eleitoral. Outros parlamentares também apresentaram questionamentos semelhantes. Esses documentos registram posições políticas de parlamentares, não constituem prova de uma operação de interferência.

Publicidade com origem no exterior: o NetLab identificou 1.613 anúncios políticos considerados irregulares. Entre os 1.076 anúncios com localização informada, 98,1% indicavam origem nos Estados Unidos. A pesquisa não demonstrou que o financiamento tenha sido realizado pelo governo norte-americano.

Conclusão: os fatos documentados incluem pressões políticas e econômicas, manifestações institucionais no Congresso dos Estados Unidos e publicidade com origem indicada nos Estados Unidos. Esses elementos podem fundamentar investigações sobre possíveis impactos na soberania eleitoral brasileira.

Até o momento, não foi comprovado vínculo direto entre o governo Trump e o financiamento dos anúncios. Também não foi comprovada a existência de uma operação estatal coordenada para manipular votos.

A distinção entre categorias de evidência é necessária: as pressões políticas, os questionamentos institucionais e as irregularidades publicitárias são fatos documentados; a avaliação de seus efeitos sobre o processo eleitoral é uma interpretação sujeita a investigação; e a hipótese de uma operação eleitoral coordenada pelo governo dos Estados Unidos permanece sem comprovação.

Fontes e documentos consultados

Nota editorial: informações verificadas até 18 de outubro de 2026. Procedimentos em andamento e novas decisões devem ser acompanhados em atualizações futuras.

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