REPORTAGEM ESPECIAL | TECNOLOGIA, SOCIEDADE E DEMOCRACIA
Gigantes da tecnologia influenciam consumo, negócios, comportamento e debate político. Pesquisas científicas, investigações eleitorais e novas legislações revelam o tamanho desse poder. A tecnologia serve à humanidade ou estamos nos tornando dependentes dela?
Saúde no Ar | 22 de outubro de 2026 | Leitura estimada: 10 a 13 minutos.
O que importa em 30 segundos
As Big Techs deixaram de ser apenas empresas de tecnologia. Elas controlam importantes canais de informação, publicidade, comércio e comunicação, influenciando o que bilhões de pessoas veem e consomem. Estudos mostram que os algoritmos podem alterar a exposição às informações e a percepção sobre conflitos políticos, mas não comprovam que as plataformas determinem automaticamente o voto.
Governos avançam na regulação das gigantes digitais. A Igreja Católica também intensificou o debate: em maio de 2026, o Papa Leão XIV publicou uma encíclica sobre dignidade humana na era da inteligência artificial. A questão decisiva é como assegurar que os benefícios tecnológicos sejam compartilhados com justiça, liberdade e responsabilidade social.
Uma nova estrutura de poder sobre a humanidade
Durante séculos, o poder esteve associado ao controle de territórios, riquezas naturais, exércitos e instituições políticas. No século XXI, uma nova dimensão ganhou importância: o controle dos dados, dos algoritmos, das plataformas digitais e da infraestrutura tecnológica.
Alphabet (Google e YouTube), Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp), Microsoft, Amazon, Apple e ByteDance (TikTok) ocupam posições estratégicas. Nvidia e desenvolvedoras de inteligência artificial também exercem influência decisiva sobre o setor. Essas empresas participam da organização dos ambientes nos quais bilhões de pessoas procuram informações, se relacionam, compram, trabalham e formam opiniões.
Segundo a União Internacional de Telecomunicações, aproximadamente 6 bilhões de pessoas utilizavam a internet em 2025, enquanto 2,2 bilhões permaneciam desconectadas. O contraste evidencia tanto o enorme alcance do mundo digital quanto a desigualdade no acesso à tecnologia. Fonte: UIT, Facts and Figures 2025.
Como as Big Techs influenciam nossas escolhas?
Uma das principais fontes de poder das plataformas está nos sistemas de recomendação. Pesquisas feitas, vídeos vistos, publicações acessadas e interações produzem dados que podem alimentar sistemas capazes de prever interesses e selecionar anúncios e conteúdos.
Quanto mais uma pessoa interage, mais informações podem ser reunidas sobre suas preferências. Isso aperfeiçoa novas recomendações, mas também faz surgir uma pergunta essencial: até que ponto escolhemos livremente aquilo que consumimos e até que ponto nossas escolhas são influenciadas pelo ambiente digital?
Em setembro de 2024, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC) publicou um relatório que identificou práticas extensas de coleta e monetização de dados pessoais por grandes empresas de redes sociais e vídeo, assim como limites à privacidade e ao controle dos usuários. Isso não significa controle absoluto da vontade humana, e sim capacidade relevante de influenciar a visibilidade de alternativas. Fonte: FTC, 2024.
Marketing e negócios: quem controla a visibilidade controla oportunidades
O marketing digital transformou o comércio: pequenos empreendedores podem alcançar consumidores distantes, profissionais podem oferecer serviços e empresas podem avaliar campanhas com precisão. Entretanto, a mesma transformação criou novas dependências. Negócios precisam lidar com regras de publicidade, classificação, taxas e distribuição definidas pelas plataformas digitais.
Uma mudança nos mecanismos de busca ou na recomendação de publicações pode alterar o alcance comercial e a capacidade de conquistar clientes. O problema é especialmente sensível quando a plataforma administra o mercado e define os critérios de destaque de seus participantes.
Em julho de 2026, a Comissão Europeia multou o Google em um total de 890 milhões de euros por infrações à Lei dos Mercados Digitais. Segundo o órgão, houve favorecimento de serviços próprios nos resultados de busca e restrições à promoção de canais alternativos de compra por desenvolvedores de aplicativos. Em abril de 2025, a Comissão também aplicou multas à Apple e à Meta em outros processos ligados à legislação. As decisões mostram que o debate envolve concorrência, liberdade econômica e condições justas para empreender. Fonte: Comissão Europeia, julho de 2026.
Comportamento humano: o custo de disputar nossa atenção
Notificações frequentes, reprodução automática, rolagem infinita e sistemas personalizados de recomendação podem aumentar o tempo de permanência nos aplicativos. Esses recursos não afetam todas as pessoas igualmente. Crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis merecem atenção especial.
Um levantamento divulgado pela Organização Mundial da Saúde em 2024, baseado em informações de cerca de 280 mil adolescentes de 44 países e regiões, identificou aumento do uso problemático das redes sociais, de 7% em 2018 para 11% em 2022. O termo descreve dificuldades de controlar o uso e suas consequências negativas; não equivale simplesmente a passar muitas horas conectado. O levantamento, por si só, não prova que as redes causem todos os problemas de saúde mental observados.
Em 2026, a Comissão Europeia apresentou conclusões preliminares sobre características potencialmente viciantes de serviços como TikTok, Instagram e Facebook. A análise envolvendo Instagram e Facebook destacou rolagem infinita, reprodução automática, notificações e recomendações personalizadas. São avaliações preliminares, não decisões judiciais definitivas. Fonte: OMS | Fonte: Comissão Europeia, julho de 2026.
Eleições: a disputa política dentro dos algoritmos
Campanhas políticas sempre recorreram aos meios de comunicação de cada época. Agora, a velocidade de distribuição, o direcionamento da publicidade e a criação de imagens, áudios e vídeos sintéticos mudaram as condições do debate. Um conteúdo produzido por inteligência artificial pode simular notícias ou falas que jamais ocorreram.
Brasil — eleições de 2026
O projeto VigIA, do Observatório Lupa, identificou 920 publicações com uso de inteligência artificial entre 16 de agosto e 28 de setembro de 2026. Cerca de 60% dos conteúdos identificados eram deepfakes, e aproximadamente seis em cada dez circulavam sem identificação do uso de IA. Entre os exemplos estavam falsas pesquisas eleitorais, simulações de notícias e cenas de campanha inexistentes.
Em outro levantamento, a Lupa identificou 64 publicações político-eleitorais manipuladas por IA entre 1º e 5 de outubro, período sujeito às restrições eleitorais específicas para conteúdos sintéticos novos. O estudo descreve somente o material encontrado pelo projeto, não todos os conteúdos que circularam. Tampouco permite calcular quantos eleitores mudaram de voto. A Meta afirmou à Lupa que sua amostra não refletia a dimensão integral do trabalho de integridade da empresa. Fonte: Lupa, 1º de outubro | Fonte: Lupa, atualizada em 13 de outubro.
Romênia — eleição presidencial de 2024
A Corte Constitucional romena anulou a eleição presidencial de 2024 depois da divulgação de relatórios oficiais sobre irregularidades e indícios de interferência. A Comissão Europeia abriu investigação sobre possíveis falhas do TikTok em reduzir riscos eleitorais, incluindo suspeitas de manipulação coordenada de sistemas de recomendação. É essencial distinguir a decisão judicial de anulação da investigação sobre responsabilidades específicas da plataforma: um fato não demonstra automaticamente o outro. Fonte: Comissão Europeia.
Estados Unidos — operações de influência em 2024
Em setembro de 2024, o Departamento de Justiça dos EUA apresentou acusações contra dois funcionários da emissora estatal russa RT. Segundo o órgão, aproximadamente 10 milhões de dólares teriam financiado a distribuição de conteúdo direcionado ao público americano por meio de uma empresa sediada no Tennessee. As autoridades também anunciaram medidas contra uma operação de influência conhecida como Doppelganger, envolvendo domínios que imitavam veículos jornalísticos. São acusações e ações oficiais documentadas, não prova de alteração do resultado eleitoral. Fonte: Departamento de Justiça dos EUA.
Moldávia — eleições parlamentares de 2025
Em relatório divulgado em fevereiro de 2026, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa afirmou que o pleito moldavo ocorreu em ambiente afetado por interferência estrangeira, ataques cibernéticos, financiamento ilícito e desinformação. Ao mesmo tempo, reconheceu aspectos profissionais e transparentes da organização eleitoral. O caso reforça a necessidade de distinguir tentativas de interferência de comprovação de fraude. Fonte: OSCE/ODIHR.
O que a ciência realmente comprova?
Os achados científicos são mais complexos do que a ideia de que redes sociais controlam automaticamente a mente humana. Um estudo publicado na revista Science, em 2023, examinou os efeitos de substituir o feed algorítmico de Facebook e Instagram por uma ordem cronológica durante a eleição americana de 2020. A mudança alterou a exposição a conteúdos e o tempo de uso, mas não produziu alterações estatisticamente significativas em importantes medidas de polarização e atitudes políticas naquele contexto.
Outro estudo, publicado em 2024 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, examinou a desativação temporária das plataformas por participantes e observou resultados limitados em polarização e outros indicadores eleitorais.
Uma pesquisa da revista Nature, publicada em maio de 2026, acompanhou 2 mil participantes distribuídos aleatoriamente entre algoritmos distintos durante oito semanas antes e depois das eleições americanas de 2024. Os autores mostraram que a ordenação orientada ao engajamento poderia amplificar conteúdos emocionalmente carregados e distorcer percepções sobre a hostilidade entre grupos políticos. Um sistema alternativo reduziu algumas dessas distorções sem afetar de maneira relevante a satisfação dos participantes.
Conclusão: os algoritmos influenciam o ambiente informacional e podem afetar percepções e comportamentos, mas não há base para afirmar que determinam sozinhos os votos ou os resultados de uma eleição. Science, 2023 | PNAS, 2024 | Nature, 2026.
Países reagem: a regulamentação ganha força
União Europeia: a Lei dos Serviços Digitais estabelece obrigações de transparência, avaliação de riscos e proteção dos usuários. A Lei dos Mercados Digitais busca limitar práticas que prejudiquem a concorrência.
Austrália: desde dezembro de 2025, plataformas abrangidas pela legislação devem adotar medidas para impedir que menores de 16 anos mantenham contas em determinados serviços de redes sociais.
Reino Unido: medidas de proteção previstas no Online Safety Act passaram a exigir controles eficazes de idade para certas categorias de conteúdo prejudicial.
Brasil: o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, Lei nº 15.211/2025, entrou em vigor em 17 de março de 2026 e prevê medidas de segurança, proteção de dados e restrições a práticas de publicidade e perfilamento dirigidas ao público infantojuvenil. O TSE também atualizou regras relativas ao uso eleitoral de inteligência artificial e à identificação de conteúdos sintéticos.
Regular plataformas, no entanto, exige equilíbrio: é necessário combater abusos sem criar censura indevida, vigilância excessiva nem restrições desproporcionais à liberdade de expressão. União Europeia | Austrália | Reino Unido | Brasil.
A Igreja Católica: tecnologia sem humanidade não é progresso
Em janeiro de 2025, dois dicastérios do Vaticano publicaram o documento Antiqua et Nova, dedicado à relação entre inteligência artificial e inteligência humana. O texto reconhece as possibilidades do desenvolvimento científico, mas lembra que a responsabilidade moral não pode ser delegada integralmente às máquinas.
Em 15 de maio de 2026, o Papa Leão XIV publicou a encíclica Magnifica Humanitas — sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. No parágrafo 95, o pontífice adverte que grandes agentes econômicos e tecnológicos podem definir as condições de acesso, as regras de visibilidade e as oportunidades de participação no ambiente digital. A concentração desse poder pode aumentar dependências, exclusões e desigualdades.
O documento rejeita tanto a recusa indiscriminada da tecnologia quanto a ideia de que a eficiência técnica seja o único critério de progresso. Pede transparência, responsabilidade e orientação para a dignidade da pessoa e o bem comum. No parágrafo 110, o Papa propõe “desarmar” a inteligência artificial, isto é, impedir que o poder técnico se transforme automaticamente em poder de governar.
O desafio, segundo a doutrina social da Igreja, é fazer da inovação uma ferramenta para a solidariedade, a justiça social e o cuidado com o outro. Antiqua et Nova | Magnifica Humanitas.
A tecnologia pode construir uma sociedade mais saudável e próspera
Seria igualmente equivocado apresentar a revolução digital apenas como ameaça. A inteligência artificial pode contribuir para pesquisas científicas, análise de imagens médicas e organização de serviços de saúde, desde que validada e supervisionada por profissionais. Na educação, ferramentas digitais ampliam o acesso ao conhecimento e podem favorecer a acessibilidade. Nos negócios, reduzem barreiras de entrada, facilitam a comunicação e aumentam a produtividade.
Um estudo da Organização Internacional do Trabalho divulgado em 2025 estimou que cerca de um em cada quatro trabalhadores exercia ocupações com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. A OIT observa que a transformação das tarefas pode ser mais frequente do que a substituição integral das profissões, com variações importantes entre setores e países.
A revolução digital também produz custos ambientais. A Agência Internacional de Energia projeta crescimento expressivo da demanda elétrica dos centros de dados até 2030. O desenvolvimento sustentável precisa, portanto, considerar inclusão, trabalho digno, privacidade, saúde e impactos ecológicos. Fonte: OIT | Fonte: AIE.
Afinal, quem manda no mundo?
Não há resposta simples. Estados continuam exercendo poderes fundamentais sobre leis, tributos, segurança e justiça. Empresas tecnológicas controlam parcelas relevantes da infraestrutura econômica e informacional. Investidores, instituições científicas, organizações sociais e cidadãos também participam dessa distribuição de poder.
Não existe evidência de que uma única empresa ou um grupo centralizado controle todas as decisões políticas e sociais do planeta. O que existe é uma estrutura de poder distribuída e, em determinados mercados, altamente concentrada. Algoritmos influenciam a visibilidade de informações, investimentos tecnológicos orientam prioridades econômicas e regras privadas afetam oportunidades de participação pública e comercial.
O maior risco não está em as máquinas se tornarem poderosas, mas em a sociedade perder a capacidade de questionar quem as desenvolve, quais interesses orientam seu funcionamento e quem recebe os benefícios.
Como colocar a revolução tecnológica a serviço de todos?
- Estados e instituições democráticas: criar normas proporcionais, fiscalizar abusos e garantir transparência e auditorias independentes.
- Empresas tecnológicas: respeitar a privacidade, reduzir práticas prejudiciais de engajamento e ampliar o controle dos usuários sobre dados e recomendações.
- Escolas, universidades e famílias: desenvolver educação digital, pensamento crítico e capacidade de reconhecer manipulações e conteúdos artificiais.
- Sociedade civil: exigir concorrência justa, inclusão tecnológica e participação nos debates sobre governança digital.
- Governos, pesquisadores e setor produtivo: priorizar aplicações em saúde, educação, trabalho, acessibilidade e proteção ambiental, medindo resultados reais para a população.
Esses princípios dialogam com as diretrizes da UNESCO para a governança de plataformas digitais, que defendem responsabilidade compartilhada e respeito à liberdade de expressão. Fonte: UNESCO.
Conclusão | O futuro da humanidade não pode ser decidido apenas por algoritmos
A humanidade atravessa uma transformação histórica. Sistemas digitais participam hoje da organização de volumes extraordinários de informações e de decisões econômicas, sociais e políticas. Esse poder pode reduzir desigualdades, ampliar o conhecimento e melhorar a assistência à saúde; também pode concentrar riquezas, intensificar dependências e comprometer o debate democrático.
A diferença entre esses caminhos não depende apenas da evolução dos computadores, mas das escolhas humanas, das instituições que regulam a tecnologia e dos valores que orientam sua utilização.
A humanidade não precisa escolher entre progresso tecnológico e dignidade humana. Precisa construir um progresso em que a tecnologia seja instrumento de liberdade, justiça e bem-estar coletivo.
A pergunta talvez não seja apenas quem manda no mundo hoje, mas quem terá o direito de decidir o futuro da humanidade amanhã.
Saúde no Ar — Construindo uma Sociedade Saudável, Próspera e Sustentável.

