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Rapadura: quais são os benefícios e por que o consumo deve ser moderado

Alimento tradicional brasileiro, a rapadura conserva parte dos nutrientes presentes no caldo da cana, mas continua sendo uma fonte concentrada de açúcar

A rapadura faz parte da cultura alimentar brasileira, especialmente no Nordeste. Produzida a partir do caldo da cana-de-açúcar, ela é obtida por meio do cozimento e da concentração desse caldo até adquirir consistência sólida.

Por não passar pelo mesmo processo de refinamento utilizado para produzir o açúcar branco, a rapadura conserva pequenas quantidades de minerais e outros compostos presentes na cana. Isso faz com que sua composição seja diferente da do açúcar refinado.

Mas existe um ponto importante: ser menos refinada não significa que a rapadura possa ser consumida livremente. Ela continua sendo um alimento rico em açúcares e deve fazer parte da alimentação com moderação.

O que existe na rapadura?

A composição pode variar de acordo com a variedade da cana, o processo de fabricação e a quantidade de água retirada durante o cozimento.

Estudos sobre a rapadura, também conhecida internacionalmente como jaggery ou açúcar não centrifugado, mostram que ela é formada principalmente por sacarose, além de quantidades menores de glicose e frutose.

Em 100 gramas de rapadura, estudos encontram aproximadamente 70% a 85% de sacarose, além de açúcares redutores, pequenas quantidades de proteínas e gorduras e minerais. O valor energético pode chegar a cerca de 380 quilocalorias por 100 gramas, dependendo do produto e da umidade.

Entre os minerais encontrados estão cálcio, magnésio, potássio, fósforo, ferro, manganês, zinco e cobre. Entretanto, as quantidades podem variar bastante e a rapadura não deve ser considerada uma fonte principal desses nutrientes.

A rapadura também pode conservar compostos fenólicos e flavonoides provenientes da cana. Esses compostos são estudados por suas propriedades antioxidantes, mas isso não significa que o consumo da rapadura tenha, por si só, efeito comprovado de prevenção ou tratamento de doenças.

Rapadura é mais saudável que o açúcar branco?

A resposta exige uma explicação.

A rapadura é menos processada que o açúcar refinado e preserva alguns minerais e compostos que são retirados durante o processo de refinamento. O próprio Ministério da Saúde explica que, de maneira geral, os açúcares menos refinados conservam mais vitaminas e minerais.

Porém, isso não transforma a rapadura em um alimento de consumo livre.

Sua principal característica nutricional continua sendo a elevada concentração de açúcares. Portanto, trocar açúcar branco por rapadura pode acrescentar pequenas quantidades de minerais à dieta, mas não elimina os cuidados relacionados ao consumo excessivo de açúcar.

O Ministério da Saúde recomenda evitar o excesso de açúcar e priorizar uma alimentação baseada em alimentos in natura ou minimamente processados.

Quais podem ser os benefícios?

Fonte rápida de energia

Por ser rica em carboidratos simples, a rapadura fornece energia rapidamente. Isso explica sua presença tradicional na alimentação de trabalhadores rurais e pessoas submetidas a atividades físicas intensas.

Entretanto, para quem tem uma alimentação equilibrada e não realiza esforço físico intenso, não há necessidade de consumir rapadura com a finalidade de obter energia.

Pequenas quantidades de minerais

Por não ser submetida ao refinamento intenso do açúcar branco, a rapadura conserva minerais como potássio, magnésio, cálcio, ferro, zinco e manganês.

Esses nutrientes são importantes para diferentes funções do organismo. O problema é que a quantidade de rapadura necessária para obter uma quantidade significativa deles também forneceria muito açúcar e calorias.

Por isso, não é adequado usar a rapadura como estratégia para corrigir uma deficiência de minerais ou anemia.

Compostos antioxidantes

A cana-de-açúcar contém compostos fenólicos e flavonoides, alguns deles com atividade antioxidante observada em estudos laboratoriais. Produtos menos refinados da cana podem conservar parte desses compostos.

Isso é cientificamente interessante, mas é preciso separar o que foi observado em laboratório ou em estudos experimentais dos efeitos comprovados na saúde humana.

Uma revisão sistemática sobre açúcares não refinados, incluindo produtos como rapadura, encontrou sinais de possíveis efeitos sobre marcadores de inflamação principalmente em estudos laboratoriais e com animais. Os próprios pesquisadores destacaram que ainda faltam estudos clínicos bem conduzidos em seres humanos para confirmar esses benefícios.

E a anemia? A rapadura ajuda?

Essa é uma das afirmações tradicionais mais conhecidas sobre o alimento.

A rapadura contém ferro, mas não deve ser utilizada para tratar anemia. Uma deficiência de ferro precisa ser investigada e tratada de acordo com sua causa e, quando necessário, com orientação profissional e suplementação adequada.

Pesquisas realizadas com derivados da cana, especialmente o melaço, mostram que eles podem conter ferro e outros componentes de interesse nutricional. Isso, entretanto, não significa que comer rapadura seja suficiente para tratar uma anemia.

Quem deve ter mais cuidado?

Pessoas com diabetes precisam ter atenção especial, porque a rapadura é rica em açúcares e pode elevar a glicemia.

Também é importante controlar o consumo por quem precisa reduzir a ingestão de calorias ou açúcares adicionados.

O problema não está necessariamente em comer uma pequena quantidade ocasionalmente, mas no consumo frequente e em grandes quantidades.

Além disso, o consumo exagerado de alimentos açucarados contribui para uma alimentação de pior qualidade nutricional e pode dificultar o controle do peso e das doenças metabólicas. O Ministério da Saúde destaca a necessidade de reduzir o consumo excessivo de açúcar na população.

Rapadura não é remédio

A rapadura tem valor cultural e alimentar e pode ser consumida dentro de uma alimentação equilibrada. Sua vantagem em relação ao açúcar refinado está principalmente no fato de ser menos processada e conservar pequenas quantidades de minerais e outros compostos da cana.

Isso, porém, não significa que seja um alimento medicinal.

Não há evidências suficientes para afirmar que a rapadura previne câncer, trata anemia, fortalece o sistema imunológico ou combate inflamações em seres humanos.

A melhor maneira de aproveitar o alimento é consumi-lo em pequenas quantidades e dentro de uma alimentação variada, sem substituir frutas, verduras, legumes, feijão, cereais e outras fontes importantes de nutrientes.

Uma tradição que merece ser preservada — com moderação

A rapadura continua sendo um dos alimentos mais característicos da cultura nordestina e uma importante forma tradicional de aproveitamento da cana-de-açúcar.

Ela fornece energia, contém pequenas quantidades de minerais e pode conservar compostos naturais presentes na cana. Mas também é, essencialmente, um alimento concentrado em açúcar.

A rapadura pode fazer parte de uma alimentação saudável, mas não porque seja um “alimento milagroso”. Seu consumo deve ser moderado, assim como acontece com outros produtos ricos em açúcar.

A rapadura contém ferro e, historicamente, fez parte da alimentação de populações nordestinas, podendo contribuir para a ingestão desse mineral. Entretanto, seu consumo isolado não é suficiente para tratar ou prevenir todos os tipos de anemia.

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