O fracasso do Brasil no combate ao novo coronavírus

O fracasso do Brasil no combate ao novo coronavírus

Fernando Alcoforado*

Este artigo visa demonstrar o fracasso do Brasil no combate ao novo Coronavirus. Em 20/05/2020, publicamos em vários websites o artigo O Brasil rumo ao colapso do sistema de saúde. Neste artigo afirmamos que a oferta de leitos vinham diminuindo dia a dia em várias capitais e que, considerando o ritmo de evolução da pandemia de Covid-19 no Brasil, as unidades de terapia intensiva (UTIs) disponíveis no país não seriam suficientes para atender a demanda. Parece que nosso prognóstico está se realizando porque o colapso do sistema de saúde está próximo devido à falta coordenação nacional no combate ao novo Coronavirus e a adoção da flexibilização do isolamento social. Esta situação está próxima de ocorrer em vários estados do Brasil cujas capacidades das UTIs estão próximas de colapsar devido à impossibilidade de atender a demanda.

No artigo acima citado, afirmamos que o Brasil estaria próximo de colapsar seu sistema de saúde porque os leitos de UTIs do SUS já estariam no limite de sua capacidade e os leitos das UTIS privadas não teriam capacidade suficiente para absorver as demandas de doentes infectados. Diante desta situação catastrófica para o sistema de saúde do Brasil, afirmamos que não haveria outra alternativa senão adotar o “lockdown” imediatamente para paralisar o crescimento do número de infectados e de mortos que deveria ser adotado especialmente em cidades e regiões críticas do ponto de vista da capacidade de atendimento do sistema de saúde. Ao contrário da adoção desta solução, alguns governadores e prefeitos decidiram flexibilizar o isolamento social para evitar o colapso do sistema econômico. Ao evitar o colapso da economia brasileira o sistema de saúde do Brasil será levado ao colapso.

Os dados atuais sobre taxa de ocupação de leitos de UTI indicados abaixo confirmam nossas projeções que indicavam a iminência do colapso do sistema de saúde do Brasil.

Taxa de ocupação de leitos de UTI

Acre – 82,6% em todo o estado em 4/6
Alagoas – 79% em todo o estado 4/6
Amapá – 98,84% em todo o estado em 4/6
Amazonas – 70% em todo o estado em 3/6
Bahia – 70% em todo o estado em 4/6
Ceará – 82,72% em todo o estado em 4/6
Distrito Federal – 69,5% na rede privada e 42,24% na rede pública em 29/5
Espírito Santo – 85,14% em todo o estado em 4/6
Goiás – 46,6% dos leitos de gestão estadual, em todo o estado em 3/6
Maranhão –96,25% na Grande São Luís, 80,85% no interior e 85,2% em Imperatriz em 2/6
Mato Grosso – 17,9% em todo o estado em 4/6
Mato Grosso do Sul – 7% em todo o estado em 4/6
Minas Gerais – 71% em todo o estado em 3/6
Pará – 79% em todo o estado em 3/6
Paraíba – 69% em todo o estado em 3/6
Paraná – 40% em todo o estado em 4/6
Pernambuco – 98% em todo o estado em 3/6
Piauí – 61% em todo o estado em 24/5
Rio de Janeiro – 86% em todo o estado em 24/5
Rio Grande do Norte – 84% em 4/6
Rio Grande do Sul – 72,9% em todo o estado em 4/6
Rondônia – 77,9% em todo o estado em 3/6
Santa Catarina – 61,7% do sistema público em todo o estado em 3/6
São Paulo – 71,4% em todo o estado em 4/6
Sergipe – 56,7% do sistema público em todo o estado em 2/6
Tocantins – 60% dos leitos ocupados em 3/6
Roraima não divulgou a lotação dos leitos de UTI do estado.

Percebe-se que à exceção de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná os demais estados do Brasil apresentam taxas de ocupação de UTIs superiores a 60% com a maioria deles apresentando taxas superiores a 80% e 90%. Estes dados foram publicados no artigo Casos de coronavírus e número de mortes no Brasil em 5 de junho publicado no website <https://g1.globo.com/…/casos-de-coronavirus-e-numero-de-mor…>.

O Imperial College de Londres realizou estudo sobre o novo Novo Coronavirus em vários países do mundo. Relatório sobre o Brasil, elaborado por Thomas A Mellan, Henrique H Hoeltgebaum, Swapnil Mishra e outros, tendo como título “Report 21: Estimating covid-19 cases and reproduction number in Brazil”, prevê que, no pior cenário para o Brasil, se ninguém ficar em quarentena e se os testes não forem multiplicados, haveria até 188 milhões de contaminados (o equivalente a 88% de toda a população brasileira) e 1,1 milhão de mortos. Mais de 6,2 milhões de pessoas passariam pelos hospitais do País por causa do coronavírus colapsando o sistema de saúde. Em cenário de quarentena apenas para os idosos, o número de mortes variaria entre 322 mil e 530 mil, a depender da taxa de transmissão e as medidas de saúde pública. No melhor cenário calculado com 75% de toda a população em quarentena, com testes para todos os pacientes com suspeita, o número de mortes pela covid-19 no país não passaria de 44,3 mil. Nestas condições, no pico da pandemia, haveria demanda para 72 mil leitos ao mesmo tempo. Portanto, com o melhor cenário de quarentena para 75% de toda a população pode salvar até 1 milhão de pessoas no Brasil, calcula o Imperial College.

O artigo sob o título Número de mortes no Brasil passa o da Itália e chega a 34.021; país agora é o 3º do mundo com mais óbitos, publicado no website <https://g1.globo.com/…/brasil-tem-34021-mortes-por-coronavi…> informa que o Brasil superou a Itália em número de mortos por complicações da Covid-19. Com mais um recorde diário de mortes (1.473 mortes por dia), o país acumula 34.021 vidas perdidas durante a pandemia e está atrás apenas do Reino Unido e dos Estados Unidos, segundo o balanço mais recente do Ministério da Saúde. São 614.941 de casos confirmados, 325.957 pacientes em acompanhamento (53 %) e 259.963 pacientes recuperados (41,5 %). Como a evolução do número de infectados e mortos crescem vertiginosamente no Brasil, o governo Bolsonaro que se opõe ao isolamento social decidiu hoje (6/6/2020) omitir criminosamente os dados da pandemia no país para que a população brasileira não tome conhecimento da gravidade da situação e não pressione os governos federal, estadual e municipal para adotarem o lockdown.

Levando em conta a decisão de alguns governadores e prefeitos de flexibilizarem o isolamento social para evitar o colapso da economia mesmo com o avanço de número de contaminados e de mortos pela Covid-19 e, considerando os estudos do Imperial College, o Brasil poderá ter 188 milhões de infectados e 1,45 milhão de mortos. Se fosse adotado o lockdown com 75% de toda a população em quarentena, com testes para todos os pacientes com suspeita, o número de mortes pela Covid-19 no país não passaria de 44,3 mil, segundo o Imperial College. Ao flexibilizar o isolamento social, os governadores e prefeitos estão contribuindo para colapsar o sistema de saúde e para o assassinato coletivo de 1,45 milhão de habitantes. Este é o preço a ser pago pelo povo brasileiro, especialmente, pela população mais vulnerável graças à irresponsabilidade de alguns governadores e prefeitos.

É oportuno observar que o epidemiologista-chefe dos Estados Unidos, Anthony Fauci, disse em seu depoimento à Comissão de Saúde do Senado que uma retomada prematura da economia norte-americana causaria sofrimento e morte desnecessários no país. Uma retomada prematura da economia poderia ter “consequências muito sérias” e que o número de mortos no país será “quase certamente” maior do que os mais de 88 mil já registrados até aquele momento de seu depoimento. A pandemia, enfatizou o cientista, não está totalmente sob controle. Se algumas áreas, cidades, estados pularem etapas e reabrirem prematuramente sem ter a capacidade de responder com eficácia e eficiência a doença, sua preocupação é que começaremos a ver pequenos picos que podem se transformar em surtos, disse Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas desde 1984, aos senadores. Na realidade, segundo ele, paradoxalmente, isso levará a um atraso que causará não só sofrimento e mortes que poderiam ser evitados, mas também poderá significar um atraso na recuperação econômica. É este cenário que se vislumbra. também, para o Brasil.

Pode-se concluir pelo exposto que se trata de ato irresponsável retomar a atividade econômica, exceto as essenciais, de forma prematura como ocorre no Brasil porque causará sofrimento e morte desnecessários. O Brasil só deveria retomar as atividades econômicas quando as curvas de infectados e de mortos pelo novo Coronavirus estivessem caindo, fato este que não se verifica no momento atual. A saúde da população deve ser considerada prioritária e não a retomada da atividade econômica. A estratégia correta do momento deveria ser a adoção do lockdown para fazer com que a curva de infectados e mortos pelo novo Coronavirus comece a decrescer para não pressionar o sistema de saúde.

As cidades e regiões em lockdown só deveriam ser liberados gradativamente da mesma forma como ocorreu na China com a população usando máscara facial, sendo submetida a constantes medições de temperatura, além da população ser controlada por meio de um código QR (Quick Response code) de saúde municipal que funciona como passaporte de imunidade. Em diversas cidades chinesas, há um QR para cada habitante, informando sua condição de saúde com base tanto em declarações próprias quanto em dados de que o governo dispõe. Assim, os cidadãos recebem códigos marcados em verde, amarelo ou vermelho. Somente os residentes com código verde podem circular livremente pela cidade. Os portadores de códigos amarelos e vermelhos devem se manter em quarentena e se registrar diariamente numa plataforma de internet para prestar informações, até obterem o código verde.

Além dessas medidas a serem adotadas por estados e municípios, deveria ser distribuída renda pelo governo federal para as populações, sobretudo as vulneráveis, para evitar que, por necessidade de sobrevivência, elas sejam obrigadas a sair de suas residências para trabalharem em escritórios ou nas ruas. Em outras palavras, o governo federal deveria pagar as pessoas para não saírem às ruas para não contaminarem ou serem contaminadas pelo vírus. Medidas deveriam ser adotadas, também, pelo governo federal para ajudar as empresas, especialmente as micro, pequena e média empresas, para sobreviverem neste momento de queda em suas receitas, bem como aos estados e municípios para evitarem sua insolvência devido à queda na arrecadação de impostos. Só o governo federal tem capacidade de colocar em prática essas medidas.

Para essas medidas serem bem sucedidas e resultarem no sucesso do combate ao novo Coronavirus no Brasil, urge a ação coordenadora do governo federal. A condição indispensável para o Brasil vencer a guerra contra o novo Coronavirus é o governo em todos os níveis e a população estarem unidos contra o inimigo comum. Lamentavelmente, no Brasil, esta situação não existe porque o Presidente da República Jair Bolsonaro está contra o isolamento social da população desrespeitando sistematicamente todas as medidas restritivas à aglomeração de pessoas sob o pretexto de que é preciso salvar, também, a economia brasileira da debacle. Em sua ação comprometedora da luta contra o novo Coronavirus, Bolsonaro afirma que as pessoas devem voltar ao trabalho. O fato de Bolsonaro assumir esta atitude está incentivando um grande número de pessoas a deixarem o isolamento em que se encontram e voltarem para a rua como já está ocorrendo em várias cidades do Brasil contribuindo para a elevação do número de contaminados e mortos pelo novo Coronavirus. O fim do isolamento social de muita gente está relacionada, também com o fato de precisarem trabalhar para sobreviver haja vista que o governo Bolsonaro não oferece às pessoas e empresas as condições necessárias à sua sobrevivência.

Além de atuar no sentido de destruir o esforço de governadores e prefeitos para combater o novo Coronavirus, o governo Bolsonaro não age com a urgência necessária no plano econômico com a liberação dos recursos financeiros que dispõe aprovados pelo Congresso Nacional para ajudar as populações vulneráveis a combater a fome, as empresas em geral para não serem levadas à falência e os estados e prefeituras municipais para evitarem sua insolvência. O Brasil precisa urgentemente de alinhamento estratégico do governo federal com os estados e municípios nas ações de saúde com as de natureza econômica para combater o novo Coronavirus. Muito dificilmente, o governo Bolsonaro adotará as medidas aqui propostas que nos leva à conclusão de que o Brasil fracassará no combate ao novo Coronavirus disto resultando o assassinato coletivo de cerca de 1,8 milhão de habitantes.

* Fernando Alcoforado, 80, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria) e Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019).

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