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Cidades mais quentes, vidas mais curtas: a crise socioambiental do calor nas favelas e nos grandes centros

O aumento da temperatura nas cidades não é apenas um “incômodo do verão”: virou uma crise socioambiental e de saúde pública. Em áreas periféricas e favelas — onde a urbanização costuma ser rápida, densa e historicamente negligenciada — o calor extremo se soma a moradias precárias, pouca arborização, falta de ventilação e serviços urbanos insuficientes. O resultado é uma desigualdade térmica: bairros ricos conseguem “comprar sombra e frescor”; bairros pobres absorvem calor, adoecem mais e morrem mais.

Essa crise nasce do encontro de três forças: (1) o aquecimento global elevando a linha de base das temperaturas; (2) a “ilha de calor urbana” criada pelo próprio desenho da cidade; e (3) um modelo de desenvolvimento urbano que concentra vulnerabilidade onde a infraestrutura é mais fraca. O IPCC alerta que, quando o aquecimento global se combina com o aquecimento induzido pelo crescimento urbano, o risco de calor extremo pode atingir metade da população urbana futura, com maior impacto no Sul Global tropical.

1) Causas estruturais: por que a cidade esquenta (e por que a favela esquenta mais)

1.1 Aquecimento global: a “temperatura de fundo” subiu

O planeta está mais quente e, portanto, as cidades partem de um patamar mais alto de risco. A Organização Meteorológica Mundial (WMO) confirmou que 2025 ficou entre os anos mais quentes já registrados, mantendo uma sequência recente de calor extremo e oceano mais quente, o que influencia eventos climáticos e ondas de calor.

1.2 Ilha de calor urbana: concreto, asfalto e pouca árvore

A cidade cria seu próprio microclima. Superfícies escuras e impermeáveis (asfalto, telhas metálicas, concreto) absorvem radiação e devolvem calor ao longo do dia e da noite; ruas estreitas e alta densidade dificultam a ventilação; a pouca cobertura vegetal reduz evapotranspiração (um “ar-condicionado natural”). O IPCC descreve que a interação entre ondas de calor e a ilha de calor urbana eleva riscos para saúde e infraestrutura (energia, água, mobilidade).

Em condições específicas, diferenças podem ser muito grandes. No interior paulista, estudos citados pela FAPESP relatam que, no período seco, pode haver diferenças noturnas de 9–10 °C entre áreas urbanas e rurais em certos municípios — um exemplo de como o efeito pode ser intenso.

1.3 Falta de planejamento urbano e segregação: calor como injustiça ambiental

Favelas e periferias são, frequentemente, o “ponto de chegada” de uma cidade que não garantiu terra urbanizada, moradia adequada, parques, drenagem e redes de serviços de forma equitativa. Isso não é detalhe: é o motor da vulnerabilidade.

O déficit é global: até o fim de 2024, havia mais de 1,6 bilhão de pessoas vivendo em moradia inadequada, e mais de 1,1 bilhão em favelas e assentamentos informais (slums e informal settlements).
E o acesso a “resfriamento” é dramaticamente desigual: análise do Chilling Prospects 2023 estima 1,12 bilhão de pessoas (entre pobres urbanos e rurais, em 77 países) em alto risco por falta de acesso a soluções de resfriamento.

Nas cidades, isso se traduz em casas com baixa proteção térmica (telhas finas, pouca ventilação cruzada, ausência de sombreamento), ruas sem árvores, poucos espaços públicos frescos e maior exposição ocupacional (trabalho ao ar livre, deslocamento a pé/ônibus).

2) Principais números: o que o calor já está causando

2.1 Mortes e adoecimento

A OMS estima ~489 mil mortes por ano associadas ao calor (média 2000–2019), com maior peso em Ásia e Europa.
Na Europa, a própria OMS destaca 61.672 mortes excessivas associadas ao calor no verão de 2022.
Estudos recentes também seguem mostrando carga elevada: análises publicadas em periódicos e centros de pesquisa europeus estimaram dezenas de milhares de mortes associadas ao calor em verões recentes (por exemplo, números próximos a ~48 mil em 2023 e ~62,7 mil no verão de 2024).

O calor extremo também piora doenças cardiovasculares e respiratórias, desidratação, insuficiência renal, complicações na gravidez, distúrbios do sono e saúde mental — e o risco cresce quando noites permanecem quentes, porque o corpo perde a chance de “descarregar” calor.

2.2 Trabalho e renda: calor reduz produtividade e amplia pobreza

O calor tem custo econômico direto: a OIT projeta que, até 2030, o equivalente a mais de 2% das horas de trabalho globais pode ser perdido anualmente por estresse térmico.
Estimativas amplamente divulgadas a partir desse relatório apontam uma perda equivalente a cerca de 80 milhões de empregos em tempo integral em 2030.

Para periferias, isso é crucial: menos horas produtivas + mais gastos com energia/saúde + mais interrupções urbanas (apagões, transporte, falta d’água) = ciclo de empobrecimento.

2.3 Escalada do risco para os mais pobres

O Banco Mundial alerta que, sem ação, a população urbana pobre exposta a calor extremo pode aumentar em 700% até 2050 (com impactos particularmente fortes em regiões do Sul Global).

3) O recorte brasileiro: favelas como “hotspots” do calor urbano

No Brasil, a ilha de calor é mensurável até por satélite. Pesquisas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro identificaram temperaturas de superfície elevadas e grandes contrastes entre áreas, chegando a valores muito altos em determinadas estações e zonas urbanas (temperatura de superfície não é o mesmo que temperatura do ar, mas é um indicador relevante de estresse térmico no ambiente construído).

Nas favelas, a combinação “densidade + baixa arborização + materiais quentes + pouca ventilação” agrava tudo. No Complexo da Maré, por exemplo, há medições indicando diferenças de até 2 °C entre regiões do próprio complexo, associadas a desenho urbano e cobertura.
E em episódios extremos, a sensação térmica pode alcançar patamares perigosos: em março de 2025, reportagens sobre o Rio relataram calor recorde, com sensação térmica chegando a ~60 °C em áreas como a Maré e milhares buscando atendimento médico por causa do calor.

Além do sofrimento físico, isso expõe o “núcleo político” do problema: o calor extremo vira um marcador de desigualdade, frequentemente atravessado por raça, renda e território — o que muitos autores e movimentos tratam como injustiça climática e racismo ambiental.

4) Desfechos prováveis se nada mudar (e por que isso vira crise urbana)

Se a tendência continuar sem adaptação séria, os desfechos mais prováveis são:

5) Soluções que funcionam no mundo: o “kit” de mitigação e adaptação ao calor urbano

Não existe bala de prata — mas já há um conjunto de soluções com evidência e escala crescente. O ponto central é combinar governança do calor + infraestrutura fresca + moradia adequada + proteção social.

5.1 Planos de Ação para o Calor e alertas precoces (saúde pública, de verdade)

Cidades que tratam calor como risco sanitário criam protocolos: alerta antecipado, comunicação comunitária, orientação de hidratação e sinais de alarme, reorganização de serviços, “cooling centers”, proteção a trabalhadores e ações focadas em bairros críticos.

Ahmedabad (Índia) é um caso clássico: estudos de avaliação sugerem que o Heat Action Plan foi associado a redução de mortalidade nos primeiros anos, especialmente em dias mais quentes.
Em termos institucionais, cidades como Atenas criaram até a figura do Chief Heat Officer e estrutura formal de plano de calor, mostrando como governança ajuda a coordenar resposta e prevenção.

5.2 “Cool roofs” (telhados frios) em assentamentos informais

Pinturas e revestimentos refletivos em telhados (muito comuns onde há telha metálica) reduzem a carga térmica dentro de casa. Projetos em assentamentos na Índia reportaram reduções típicas de ~1,2 °C a 1,7 °C na temperatura interna (variando por material, ventilação e contexto), com relatos de melhora de conforto e sono e potencial redução de gasto energético.

5.3 Corredores verdes, árvores e infraestrutura baseada na natureza

Árvores e áreas verdes resfriam por sombreamento e evapotranspiração. Estudos e revisões recentes apontam que espaços verdes urbanos podem reduzir temperaturas locais em amplitudes variáveis, com vários trabalhos reportando resfriamentos de ordem de 2–4 °C em certos contextos e até mais em condições específicas.
Um estudo amplo (Nature, 2024) mostra que árvores podem reduzir temperaturas ao nível do pedestre e diminuir picos térmicos em muitas cidades — reforçando o potencial de escala do plantio urbano bem planejado.

Medellín (Colômbia) virou vitrine com corredores verdes; a prefeitura reportou redução de ~2 °C no efeito de ilha de calor após expansão do projeto.

5.4 Pavimentos frios (cool pavements) e superfícies refletivas

Programas de pavimento refletivo (por exemplo, em Los Angeles) observaram reduções de temperatura do ar em ruas tratadas (em alguns cenários, até ~3,5°F mais fresco) e quedas importantes na temperatura da superfície.
A EPA também descreve evidências de que pavimentos frios podem ficar ~10–16°F mais frios que materiais convencionais em certas medições.

5.5 Acesso a resfriamento seguro: “não basta mandar se adaptar”

Ar-condicionado salva vidas em ondas de calor, mas pode aprofundar desigualdade e emissões se vier sem eficiência e energia limpa. O mundo começa a tratar “acesso a resfriamento” como política pública (eficiência, subsídios para vulneráveis, ventilação passiva, sombreamento, redes elétricas resilientes). A lacuna é enorme, como mostram os 1,12 bilhão em alto risco por falta de acesso a resfriamento adequado (em países analisados).

6) O que isso significa, na prática, para favelas e periferias no Brasil

Se o objetivo é reduzir mortes e sofrimento em 2–5 anos (não em 20), a lógica mais eficaz costuma seguir esta sequência:

  1. Mapear o calor por bairro (sensores, satélite, participação comunitária) e criar um “ranking” de vulnerabilidade térmica.
  2. Plano municipal de calor integrado ao SUS e à Defesa Civil (alertas, comunicação, protocolos, pontos de resfriamento).
  3. Programa de telhados frios + sombreamento em casas mais expostas (prioridade: telha metálica, laje exposta, casas sem ventilação).
  4. Corredores verdes e sombra para mobilidade (rotas de ônibus, escolas, unidades de saúde, áreas de grande circulação).
  5. Requalificação urbana básica: água, drenagem, iluminação, espaços públicos frescos, e regulação de materiais urbanos (pavimentos e telhados).
  6. Proteção do trabalho em dias extremos (protocolos, pausas, hidratação, horários adaptados), porque o custo recai sobre quem depende do corpo para viver.

A ideia é simples: não existe justiça climática sem justiça urbana. Planejamento urbano não é estética; é política de saúde, renda e sobrevivência.

 

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